A lista de Teerã
Análise · Clara Verdi A lista não é uma oferta, é uma fatura.
Análise · Clara Verdi
A lista não é uma oferta, é uma fatura. O Irã, por meio de Mohammad Bagher Zolghadr, secretário do seu Conselho Supremo de Segurança Nacional, não propõe um caminho para reabrir o Estreito de Ormuz; ele apresenta a conta de uma guerra. Fim do bloqueio naval, retirada das forças americanas da vizinhança, reparações, liberação de ativos congelados. As condições, veiculadas pela mídia estatal, são a formalização de uma inversão de poder que o Ocidente custa a nomear.
O bloqueio do estreito, em si, foi um ato de retaliação a ataques americanos e israelenses em fevereiro. A diplomacia, desde então, opera em uma ficção. Enquanto Omã negocia os termos técnicos da gestão do canal com Teerã, todos olham para Washington. O porta-voz da Guarda Revolucionária, Hossein Mohebbi, foi explícito: a reabertura não depende das conversas com os vizinhos, mas da “plena aceitação das condições do Irã pelos EUA”. A negociação regional virou teatro. O palco principal é outro.
Nesse palco, a audiência não é apenas iraniana. Zolghadr fala das “exigências do povo iraniano, que as proclamou em alto e bom som durante 160 dias de presença firme no campo de batalha e nas ruas”. A linguagem é a da soberania ferida que cobra seu preço, não a da barganha econômica. Ignorar isso é ver apenas o preço da gasolina, que assombra a eleição de meio de mandato de Donald Trump, e não a humilhação convertida em alavanca geopolítica.
A Europa, em um apelo previsível, pede a reabertura “urgente”. França, Alemanha, Itália e Reino Unido enxergam uma rota comercial estratégica interrompida e os efeitos sobre a energia global. O que talvez não vejam, ou não queiram ver, é que o problema não é mais logístico. A lista de Zolghadr transforma o Estreito de Ormuz de um ponto em um mapa de navegação a um símbolo. Um nó geográfico onde se decide não apenas o fluxo de navios, mas o de poder.
Para o governo Trump, aceitar as condições é improvável, seria capitular. Recusá-las é manter a pressão sobre os consumidores americanos e arriscar-se em novembro. O Irã sabe disso. Ele não ofereceu uma saída, mas um dilema. A questão, agora, não é quando o estreito será reaberto, mas quanto os Estados Unidos estão dispostos a pagar para que ele seja?
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Irã lista exigências aos EUA para reabrir Estreito de Ormuz
Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil