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A lição improvável de Manizales

Análise · Clara Verdi A terra que treme sob os pés dos homens não distingue entre códigos de construção e preces.

A lição improvável de Manizales
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

A terra que treme sob os pés dos homens não distingue entre códigos de construção e preces. Em Manizales, porém, a segunda-feira ensinou que um bom regulamento pode mais que a fé. O jornalista Luis Felipe Molina, de seu apartamento no 17º andar, viu prédios balançarem de um lado para o outro como pêndulos no caos, ouviu o estilhaçar dos vidros e os gritos na rua, sentiu o chão sob si mover-se com uma força que não se via desde 1999. Quase todos os seus 450 livros foram ao chão. O edifício, não.

O epicentro do tremor de 7,4 graus foi a 150 quilômetros dali, em San José del Palmar, mas a onda de choque varreu o Eixo Cafeeiro como um acerto de contas geológico. Molina, que aos seis anos viveu o sismo de 1999 e fez do evento o motor de uma vocação, sabe da periodicidade da fúria da terra naquela região: 1962, 1979, 1999. A memória da catástrofe se inscreve na paisagem, mas também nas leis. O que ele chama de “código de resistência sísmica” é a fina membrana da racionalidade humana esticada sobre o abismo do imprevisível. Uma aposta na técnica.

A burocracia que salva

Há algo de profundamente europeu, ou talvez da aspiração de sê-lo, na confiança depositada num código. É a crença na norma, no estado que regula, na prevenção que se antecipa à tragédia. Enquanto uns gritam, outros calculam a resistência do concreto. A Itália, minha Itália, conhece bem demais o saldo de vilarejos inteiros que sucumbem não apenas à força do sismo, mas à negligência cúmplice de quem ignorou os manuais. Em Manizales, a aposta na regra salvou o prédio de Molina. Mas a cidade não é um monólito.

Juro a vocês que, se não fosse o código de segurança, esta cidade estaria em ruínas.

A frase do jornalista é um atestado de fé na ordem civil, mas a realidade da rua contradiz a pureza do conceito. Mais de doze edifícios e vinte residências colapsaram. Duas pessoas morreram, pelo menos. A cidade, segundo o próprio prefeito, não dá conta. A norma existe, mas, como admite Molina, "obviamente há quem não cumpra as regras". A tragédia, então, se revela não como um ato puro da natureza, mas como um auditor implacável da desigualdade. Ela expõe quem pôde pagar pelo prédio que segue a norma e quem vivia na estrutura que era apenas uma catástrofe à espera de um empurrão.

Aeroporto fechado, estradas cortadas, gente em pânico nas ruas sem luz. A Colômbia conta seus mortos e avalia os danos. Daqui, o que se vê não é um desastre natural. É um teste de estresse sobre o tecido social, expondo onde a costura da lei era firme e onde não passava de um alinhavo frouxo. Quantas cidades, de Nápoles a Istambul, passariam no mesmo teste?

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Terremoto de 7,4 graus atinge oeste da Colômbia e deixa mortos

Fontes: g1 · BBC News Brasil