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A injeção possível contra o HIV

Análise · Dra. Camila Torres Um medicamento é mais do que sua molécula; é seu acesso.

A injeção possível contra o HIV
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Análise · Dra. Camila Torres

Um medicamento é mais do que sua molécula; é seu acesso. A decisão do Ministério da Saúde de pedir à Conitec a incorporação do cabotegravir como profilaxia pré-exposição (PrEP) ao HIV no SUS é uma aula de saúde pública na prática. A escolha não se dá no vácuo de um laboratório, onde se comparam apenas mecanismos de ação e meias-vidas, mas na arena complexa da economia e da equidade.

A PrEP oral, com comprimidos de uso diário, transformou a prevenção do HIV. A adesão, contudo, continua sendo um desafio clínico e comportamental. Uma injeção bimestral, como a que o cabotegravir oferece, simplifica o regime preventivo de forma drástica. Para populações vulnerabilizadas ou com rotinas que dificultam a disciplina diária de um comprimido, a mudança é substancial. Menos uma preocupação na contagem de um dia, a cada dois meses.

A discussão, porém, se aprofunda quando olhamos o medicamento que não foi escolhido. O lenacapavir, com sua proteção semestral, representaria um avanço ainda maior na conveniência. O ministro Alexandre Padilha foi direto: o preço ofertado pela farmacêutica era inviável. Sua fala durante a 26ª Conferência Internacional de Aids, no Rio de Janeiro, é a tradução de um dilema permanente dos gestores de saúde: o ponto de equilíbrio entre a inovação tecnológica e a sustentabilidade de um sistema universal.

A saúde pública não opera com orçamentos infinitos. Pagar dez vezes o valor oferecido a países de perfil similar e ainda assim ter a oferta recusada não é uma negociação, é um impasse. A exclusão do Brasil do acordo de licenciamento voluntário para a produção de genéricos do lenacapavir, mesmo tendo sido campo de provas para o medicamento, adiciona uma camada de amargura ao debate. Fica a impressão de que o acesso é um benefício geográfico, não um direito sanitário.

A escolha pelo cabotegravir não é, portanto, a escolha pelo "segundo melhor". É a escolha pelo melhor possível, dentro das condições impostas. É a opção que permite que a prevenção chegue a mais gente, com mais eficácia que o método atual, sem drenar recursos que faltariam para outras frentes da mesma epidemia. Na longa jornada para o fim da Aids, cada passo precisa ser firme e calculista. A injeção que logo estará no posto de saúde é, hoje, o passo mais pragmático e potente que o Brasil pode dar.

Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Saúde pedirá inclusão de PrEP injetável para HIV no SUS

Fonte: Agência Brasil

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.