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A inevitável sombra de Brasília

Análise · Beatriz Fonseca Um candidato pediu para o outro esquecer Jair Bolsonaro.

A inevitável sombra de Brasília
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Análise · Beatriz Fonseca

Um candidato pediu para o outro esquecer Jair Bolsonaro. O outro pediu que o primeiro agradecesse a Luiz Inácio Lula da Silva. O primeiro debate entre os postulantes ao governo de São Paulo, transmitido pela Band na noite de 9 de outubro, foi menos um debate sobre São Paulo do que um ajuste de contas sobre Brasília.

Fernando Haddad (PT), ex-ministro da Fazenda, iniciou a nacionalização do diálogo. Ao citar a desocupação da favela do Moinho, na capital, questionou se Tarcísio de Freitas (Republicanos), o governador, havia agradecido ao governo federal pela cessão do terreno. A estratégia era clara: posicionar o governo Lula como um parceiro republicano do estado. Tarcísio respondeu que a visão não era "tão republicana assim", citando o que descreveu como o travamento de empréstimos internacionais e financiamentos pelo Banco do Brasil.

A partir daí, a disputa estadual tornou-se um palco para as narrativas federais. Em sua tentativa de rechaçar a tática, Tarcísio de Freitas acabou por adotá-la. "Você está muito focado em Bolsonaro, falando de Bolsonaro, Bolsonaro, Bolsonaro", disse o governador, para em seguida concentrar suas próprias críticas na gestão federal, sobretudo na condução da economia.

Na minha avaliação, o debate expôs um dilema estrutural para os dois candidatos. Haddad, em segundo lugar nas pesquisas segundo o material de apuração, precisa do capital político do presidente para crescer. Tarcísio, por sua vez, construiu sua carreira política como ministro de Jair Bolsonaro e não pode romper com essa identidade sem alienar sua base. A tentativa de se apresentar apenas como gestor paulista durou poucos minutos.

A troca de acusações sobre a verdade — "faltando com a verdade", disse Haddad; "me impressiona o nível de mentira", respondeu Tarcísio — transformou o encontro num exercício de demarcação de território. O petista associou o governador a "negacionistas" do clima e da vacina. O republicano defendeu sua gestão em segurança pública e prometeu "restabelecer a verdade" sobre os números.

O eleitor paulista viu, no fim, dois projetos nacionais em conflito, mediados por dois representantes que não podem, ou não querem, se desvincular de suas origens políticas. A questão que permanece é se São Paulo ainda se vê como um laboratório para o país ou se tornou apenas mais um campo de batalha para uma disputa que começou muito antes.

Beatriz Fonseca — Política nacional — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Tarcísio e Haddad divergem sobre Lula e Bolsonaro em debate na Band

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.