A inércia da inadimplência
Análise · Ricardo Mendes A taxa de inadimplência no sistema financeiro brasileiro permaneceu em 4,7% em junho, estável em relação a maio,…
Análise · Ricardo Mendes
A taxa de inadimplência no sistema financeiro brasileiro permaneceu em 4,7% em junho, estável em relação a maio, mas estacionada no maior patamar da série histórica iniciada pelo Banco Central em março de 2011. A aparente ausência de movimento no indicador, porém, mascara uma dinâmica preocupante e revela os limites de programas de renegociação de dívida quando a estrutura do endividamento permanece intacta.
O dado de junho é particularmente relevante por ser o primeiro a capturar um mês completo de vigência do Desenrola 2.0, programa governamental de renegociação de débitos lançado em maio. Segundo o Ministério da Fazenda, a iniciativa já intermediou a reestruturação de R$ 22 bilhões em dívidas. O volume é expressivo, mas não foi suficiente para mover o ponteiro da inadimplência geral. A taxa, que mede os atrasos superiores a 90 dias, não cedeu.
Para entender a resiliência do problema, é preciso decompor o agregado. A inadimplência das pessoas físicas, que mais sensibiliza o debate público, também se manteve no recorde de 5,6%. Já a das empresas, em 3,2%, está no nível mais elevado desde novembro de 2017. Um ano atrás, a inadimplência total era 1,0 ponto percentual menor. A trajetória de alta é clara e recente.
O peso da dívida
Programas como o Desenrola são intervenções necessárias e de mérito social, mas atuam sobre o estoque do problema — a dívida já existente. A questão de fundo, no entanto, é o fluxo: as condições que levam ao endividamento contínuo. Os dados do próprio Banco Central mostram que a relação entre o saldo das dívidas das famílias e sua renda acumulada em doze meses era de 49,8% em maio. É um comprometimento de renda que comprime a capacidade de consumo e poupança, tornando a rolagem de débitos um exercício de alto risco.
Enquanto o custo do crédito e as condições gerais de renda não apresentarem melhora substancial, a tendência é que novos contingentes de devedores substituam aqueles que conseguiram renegociar suas pendências. O Desenrola alivia a pressão sobre uma parcela da população, mas a máquina do endividamento segue operando em alta rotação. A estabilidade no recorde de inadimplência não é um platô de acomodação; é um sinal de que a força da conjuntura econômica supera, por ora, a eficácia das políticas de alívio financeiro.
A prorrogação do programa até agosto é o reconhecimento tácito de que a tarefa é mais complexa do que se previa. O sucesso da política de desinflação, conduzida pelo Banco Central, será crucial para determinar se essa estabilidade é o prenúncio de uma queda ou apenas uma pausa antes de novas altas.
Ricardo Mendes
Economia — chefia da Xaplin
Ricardo Mendes — Economia — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Inadimplência bancária no Brasil mantém recorde em junho
Fontes: g1 · CNN Brasil