Fraudes financeiras causam prejuízo bilionário globalmente
Golpes financeiros se proliferam, custando anualmente o equivalente ao PIB da Argentina, com vítimas em todo o mundo.
Análise · Luciano Aragão
O número é do tamanho de uma Argentina. Quarenta e cinco milhões de brasileiros conectados à internet foram alvo de tentativas de golpe usando seus próprios dados. Vinte por cento deles, o equivalente a uma população de São Paulo e Rio de Janeiro somada, caíram. O levantamento, apresentado em um seminário na capital paulista, é o primeiro do gênero feito pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação, o Cetic.br, um braço do Comitê Gestor da Internet no Brasil. E chega tarde.
A pesquisa desenha a anatomia de um assalto cotidiano. O telefone toca, a mensagem chega. O golpe não precisa mais do talento de um estelionatário artesanal, daquele que convence a vítima no gogó. Agora ele opera em escala industrial. A principal porta de entrada são os aplicativos de mensagem, citados por 84% dos que sofreram a tentativa. Em seguida, as ligações telefônicas (79%). É um ataque coordenado, multicanal, que explora a intimidade que o cidadão comum tem com seus aparelhos. Uma intimidade que gera confiança. E vulnerabilidade.
Winston Oyadomari, um dos coordenadores do estudo, menciona a dificuldade de abordar o tema. As pessoas se sentem constrangidas, abaladas. É um ponto. Outro, talvez mais profundo, é a normalização do risco. O brasileiro se acostumou a viver em um ambiente digital onde seus dados valem pouco e o custo de um ataque é próximo de zero para o fraudador. A pesquisa foi feita com 2,5 mil entrevistas online. Os dados, coletados em dezembro de 2025, fotografam um cenário que o poder público trata com a velocidade de um processo administrativo.
O estudo indica uma correlação curiosa. Usuários que acessam a internet apenas pelo celular relatam mais tentativas de golpe via sites ou aplicativos falsos do que aqueles que também usam o computador. A tela menor, a atenção dividida, a pressa do dia a dia. Tudo isso pode limitar a capacidade de identificar a armadilha. A ferramenta que democratizou o acesso à informação se tornou o balcão preferido da fraude.
O que a pesquisa não mede, nem é sua função, é o tamanho da paralisia institucional diante da hemorragia de dados. Enquanto se discutem marcos regulatórios e a eficácia das leis de proteção, o crime acontece, minuto a minuto, na palma da mão de milhões.
Quantas comissões serão necessárias para entender que o golpe já virou rotina?
Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.
Leia o factual: 45 milhões de usuários de internet sofrem tentativas de golpe
Fonte: Agência Brasil