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A impotência como estado de emergência

Análise · Clara Verdi A retórica do Estado moderno, essa grande máquina de controle e previsão, desmorona diante de um incêndio.

A impotência como estado de emergência
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

A retórica do Estado moderno, essa grande máquina de controle e previsão, desmorona diante de um incêndio. Na França e na Espanha, a convocação das Forças Armadas e a declaração de emergência nacional são menos uma demonstração de poder do que o reconhecimento formal de uma impotência. Quando o chefe de emergências de Madri, Carlos Novillo, admite que o fogo está “além da capacidade” de contenção, ele não descreve apenas um fato técnico. Ele enuncia a condição existencial de um continente que se pensava mestre de seu território e de seu destino.

Não se trata de uma catástrofe que irrompe do nada. Há uma genealogia para estas chamas que consomem os arredores de Bordeaux e Madri. Uma história de verões cada vez mais longos e secos, de uma paisagem alterada, de um modo de vida que empurrou a natureza para o canto do pensamento, tratando-a como cenário ou recurso, nunca como força ativa e imprevisível. A “tempestade perfeita” de que fala a presidente regional Isabel Díaz Ayuso — calor, vento, frentes de incêndio que se unem — é o vocabulário da política para nomear o que ela não governa mais.

E há os números, brutais na sua abstração. Mais de 270 mil pessoas arrancadas de suas casas. Uma cidade inteira deslocada pelo fogo. Mas o número esconde a realidade granular do evento: o gesto de fechar uma porta sem saber se ela será reaberta, o êxodo em estradas secundárias, a fumaça no retrovisor. O prefeito de El Tiemblo, em Ávila, disse que foi “horrível” ver as chamas percorrerem 20 quilômetros em menos de meia hora. A palavra é precisa. É o horror de assistir à velocidade do incontrolável, a uma força que não negocia, não faz política, apenas avança.

O Estado defensivo

A linguagem das autoridades é sintomática. O foco da Unidade Militar de Emergências espanhola é a “proteção de áreas” e a tomada de “medidas defensivas”. O ministro do Interior diz que fará “tudo o que pode” para evitar que dois focos gigantes se unam. Não é mais uma linguagem de domínio, mas de redução de danos. O Estado recua para uma posição reativa, defensiva, quase sitiada. Seu papel torna-se o de organizar a retirada, administrar a perda, contar os hectares queimados — mais de 6 mil só na região de Madri — e torcer para que o vento mude. E para que as brasas, que “voam por quilômetros”, não iniciem outro capítulo desta mesma história.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: França e Espanha evacuam mais de 270 mil por incêndios

Fontes: Folha de S.Paulo · BBC News Brasil