A herança em domicílio e o herdeiro no palco
Análise · Luciano Aragão O ex-presidente Jair Bolsonaro não estava na convenção do Partido Liberal. Nem poderia.
Análise · Luciano Aragão
O ex-presidente Jair Bolsonaro não estava na convenção do Partido Liberal. Nem poderia. Cumpre prisão domiciliar e está proibido de fazer manifestações públicas. Ainda assim, foi o protagonista do evento que, neste sábado, oficializou a candidatura de seu filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), à Presidência da República. A imagem do patriarca, gerada por inteligência artificial, falou ao público no Pacaembu. Um aviso no início do vídeo esclarecia: o discurso não havia sido gravado pelo ex-presidente. Era um espectro digital contornando uma ordem judicial.
A tecnologia serviu como metáfora para a própria candidatura. Flávio Bolsonaro sobe ao palco como um representante, um administrador do espólio político do pai. Seu discurso e os de seus aliados reforçaram a ideia. Ele seria o continuador do legado. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), foi explícito ao listar as credenciais do candidato: “Esteve junto, viu as dificuldades do Poder Executivo, viveu as dificuldades de Brasília. Tem experiência (...) por estar ombro a ombro com seu pai”. A qualificação, portanto, é a proximidade filial.
A dinastia e seus arranjos
A unção de Flávio exigiu arranjos familiares recentes. Fizeram as pazes ele e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, presidente do PL Mulher, que há um mês o acusara de maus-tratos. Reconciliados após um pedido público de desculpas, ela enviou um vídeo de apoio, assim como os irmãos Eduardo e Carlos. A operação para manter o clã unido e o capital político em casa foi selada diante dos militantes.
O presidente nacional do PL, Valdemar da Costa Neto, organizou a cerimônia como um espetáculo de força da direita. Convidou o presidente da Argentina, Javier Milei, que atacou o “socialismo” e a Justiça brasileira em um discurso de trinta minutos, prejudicado por falhas na tradução simultânea. A presença do mandatário estrangeiro serviu para dar um verniz internacional à empreitada e, ao mesmo tempo, nacionalizar suas críticas às instituições do país.
Flávio Bolsonaro, aos 45 anos, carrega a experiência de quatro mandatos como deputado estadual e um de senador, além de um processo arquivado pelo Supremo Tribunal Federal por suspeitas de desvio de salários de assessores. Mas o que o PL vendeu na convenção não foi sua biografia, mas sua genealogia. Sem a presença física do pai, o partido aposta que uma versão artificial de seu legado, transmitida pelo filho, será suficiente para mobilizar o eleitorado.
Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.
Leia o factual: PL oficializa candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência
Fontes: Agência Brasil · g1