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Ilha no Pacífico enfrenta escassez de alimentos

Uma ilha com terra fértil e chuvas frequentes enfrenta uma crise de segurança alimentar, apesar da abundância natural.

Ilha no Pacífico enfrenta escassez de alimentos
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

Uma ilha de terra fértil, chuvas frequentes e mar por todos os lados. Para alimentar nove milhões de pessoas, gasta 2,4 bilhões de dólares por ano comprando comida de fora. Oitenta por cento do que se come em Cuba vem de navio. A contradição é tão brutal, tão grosseira, que parece a premissa de um romance distópico, não um dado do Programa Mundial de Alimentos da ONU.

A história, como sempre, é menos simples que a manchete e mais amarga que o açúcar que a explica. Cuba não se tornou dependente por acaso ou por um único erro de cálculo ideológico. Ela foi moldada, por mais de um século, pela lógica da monocultura. Havia uma vocação imposta pelo mercado global: produzir açúcar para os Estados Unidos, depois para o bloco soviético, e com o dinheiro comprar o que fosse necessário para a vida. O economista William Messina, da Universidade da Flórida, recorda que os acordos comerciais tornavam a equação rentável. Era uma aposta. Uma aposta que a ilha perdeu.

Os números de hoje são os de uma capitulação. Entre 2018 e 2023, a produção de carne de porco desabou 95%. A de arroz, 87%. O leite, 58%. Isso não é uma crise, é um desmonte. A caderneta de abastecimento, outrora símbolo de uma promessa de equidade, hoje é a prova de uma falência nutricional. O que se vê nos mercados vazios é o resultado final de uma longa dependência que, sem o patrono da vez, se revela em sua forma mais pura: fome.

É claro que esta leitura não encerra a questão; falta a cifra do embargo, o peso de decisões políticas que ainda definem o que entra e o que sai da ilha. Mas o problema estrutural precede e sobrevive a qualquer sanção. Antes da Revolução, entre 1955 e 1959, Cuba produzia quase toda a carne e o leite de que precisava. O caminho da autossuficiência existiu. Foi abandonado.

O que resta é a imagem de um país tropical, de solo generoso, que não consegue mais garantir o feijão e o arroz de seus filhos. A terra continua lá, o sol também. O que se perdeu no meio do caminho?

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Cuba gasta US$ 2,4 bi por ano com importação de 80% dos alimentos

Fontes: Folha de S.Paulo · BBC News Brasil