Conflito entre EUA e Irã desafia definição de guerra
O conflito entre Estados Unidos e Irã intensifica-se, gerando mortes e levantando a questão: é uma guerra que ninguém quer nomear?
Análise · Clara Verdi
Dezoito caixões americanos e três mil corpos iranianos valem uma palavra. A palavra é "guerra". Donald Trump, no entanto, prefere "conflito militar", ou, com a desfaçatez que lhe é peculiar, "fichinha". A semântica presidencial não é um lapso; é uma estratégia. Uma tentativa de dobrar a realidade até que ela se ajuste ao roteiro de uma vitória que deveria ter durado seis semanas e já sangra há seis meses. Em Washington, a guerra que se trava na gramática busca esconder a guerra que se perde no Golfo Pérsico.
A história se repete, não como farsa, mas como um eco cansado nos corredores do poder. Trump compara suas dezoito perdas às dezenas de milhares do Vietnã. A contabilidade macabra serve para diminuir o presente, para transformar uma promessa quebrada em um sucesso relativo. O que a aritmética presidencial omite é a desproporção. Omite os três mil iranianos mortos, os US$ 37,5 bilhões gastos, a disparada no preço dos combustíveis, o estoque de urânio enriquecido de Teerã que permanece intacto. A vitória, prometida para a primavera, não chegou com o verão.
O vice-presidente J. D. Vance, quando pressionado sobre um fim, responde com um encolher de ombros verbal: "pergunte aos iranianos". A declaração, mais do que uma evasiva, é uma confissão. O controle da narrativa, tão caro a esta Casa Branca, escapa. Quem dita o fim de um conflito é quem detém a vantagem, e a resposta de Vance sugere que a vantagem não está em Washington. O fato de os Estados Unidos ainda hesitarem em sancionar a China, principal via de escape econômica de Teerã, apenas sublinha a fragilidade da posição americana, prisioneira das próprias ambições.
Ainda é cedo para saber se este "conflito militar" se tornará o atoleiro definitivo de Trump ou apenas mais um capítulo de sua presidência performática. A Europa, por enquanto, assiste em silêncio, cúmplice e apreensiva. O que se desenrola no Estreito de Ormuz é a normalização da guerra por outros meios — o eufemismo, o cálculo de corpos, a minimização do custo. Quando Trump diz que “a gente fez a Venezuela e a gente fez isso”, ele não está apenas listando operações militares. Ele está definindo uma era: a da guerra como um item no balanço, uma despesa controlada. A guerra como fichinha.
A questão não é se o conflito é grande ou pequeno para a máquina militar americana. A questão é o que acontece quando um poder imperial começa a tratar as vidas que ceifa, inclusive as suas, como nota de rodapé.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
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Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil