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A gramática do dólar

Análise · Clara Verdi Washington fala a língua do ultimato, e agora refina a sintaxe.

A gramática do dólar
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

Washington fala a língua do ultimato, e agora refina a sintaxe. A promessa de novas sanções contra o Irã, a serem detalhadas pelo secretário do Tesouro Scott Bessent, não é apenas mais um lance na longa partida que se joga desde 1979; é a explicitação de uma doutrina. A ameaça não se dirige mais apenas a Teerã. A mensagem, embalada na grandiloquência de um “Dia D econômico”, mira os ouvidos de Berlim, de Paris, de Pequim, de todos que ainda mantêm algum fio comercial com os iranianos.

O mecanismo é o das sanções secundárias. Não se trata de uma novidade, mas de uma ampliação de escopo. A lógica é brutal em sua simplicidade: quem comercializa com meu inimigo, não comercializa comigo. E como o “comigo” americano significa acesso ao sistema financeiro dolarizado, a escolha se torna, para muitos, uma não-escolha. Bessent e Trump não estão propondo um debate, estão emitindo uma ordem de despejo da economia global. O objetivo declarado é forçar o fim do bloqueio no Estreito de Ormuz. Um pretexto tático para uma manobra de fôlego estratégico.

A retórica marcial — “Dia D”, “guerra econômica” — não é casual. Ela busca transformar uma decisão de política externa em um imperativo moral, um alinhamento de civilização. É uma tentativa de refundar o poder americano não sobre a persuasão, mas sobre a coação. E é precisamente aqui que a Europa se vê paralisada. As chancelarias europeias, que ainda se apegam aos vestígios do acordo nuclear e a uma diplomacia de filigrana, recebem o recado como uma nota dissonante, um ato de força que ignora suas próprias soberanias. O que se pode fazer quando seu principal aliado militar lhe aponta uma arma econômica?

A eficácia dessa asfixia, no entanto, é uma questão em aberto. Sanções podem endurecer regimes em vez de dobrá-los, unindo a população contra um inimigo externo. A pressão pode forçar o Irã a buscar rotas de fuga em outros sistemas, acelerando uma desdolarização que já se desenha no horizonte. A Casa Branca aposta que o poder do seu sistema financeiro é absoluto. Uma aposta alta.

Enquanto o mundo aguarda os detalhes técnicos do anúncio de Bessent, uma coisa é certa: a soberania, no século XXI, mede-se cada vez menos pela força dos exércitos e cada vez mais pelo controle dos fluxos financeiros. Quem tem a chave do cofre global escreve as regras. E o que acontece quando as regras são reescritas por decreto?

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Tesouro dos EUA ampliará sanções ao Irã nesta segunda (24)

Fontes: CNN Brasil · UOL