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A fresta diplomática em Ormuz

Análise · Clara Verdi O Estreito de Ormuz não é um lugar, é um nervo.

A fresta diplomática em Ormuz
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

O Estreito de Ormuz não é um lugar, é um nervo. Por ele não passa apenas um terço do petróleo mundial, mas o fluxo sanguíneo de uma economia global que vive sob a ameaça permanente de um coágulo. Toda a retórica de guerra e paz, de Washington a Teerã, se condensa naqueles poucos quilômetros de água salgada. A notícia de que Omã, o eterno mediador, propôs ao Irã uma gestão partilhada do estreito é mais do que uma nota de agência; é uma tentativa de suturar esse nervo antes que ele se rompa.

A proposta omanita é de uma simplicidade quase subversiva. Um mecanismo regional, financiado por contribuições voluntárias, inspirado no modelo do Estreito de Malaca. O objetivo declarado é financiar a segurança e a proteção ambiental. O objetivo real, não dito, é retirar o estreito da lógica binária do confronto, transformando-o de ponto de estrangulamento em espaço de cooperação, mesmo que forçada. A diplomacia, por vezes, é a arte de criar interesses comuns onde só existem antagonismos.

O gesto de Omã, respaldado por vizinhos do Golfo, chega quando o ar da região está denso com o zumbido de drones. A Arábia Saudita intercepta um, a Jordânia derruba outro. O Irã troca telefonemas com Riad ao mesmo tempo que acusa os Estados Unidos de “ações agressivas”. É neste teatro de sombras e espelhos, onde cada movimento pode ser um blefe ou o prelúdio de um ataque, que a proposta de um pedágio voluntário soa como um sussurro de racionalidade.

A chave da oferta está na sua recusa do controle exclusivo. Para o Irã, ceder o domínio absoluto sobre a via marítima seria uma concessão estratégica imensa. Para a Arábia Saudita e seus aliados, seria a garantia de que a artéria vital não será fechada por um capricho de Teerã. E para o mundo, seria um respiro. O que Omã oferece não é uma paz duradoura, mas uma *tregua*, uma administração pragmática do risco. Uma forma de dizer que, enquanto as grandes potências jogam seus jogos de guerra, os países da região podem, talvez, cuidar do próprio quintal.

É um movimento que busca substituir a política da canhoneira pela política da administração portuária. Menos espetacular, certamente. Mas infinitamente mais sensato. Resta ver se a razão, essa mercadoria tão escassa no Golfo Pérsico, encontrará compradores.

Clara Verdi

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Omã propõe gestão conjunta do Estreito de Ormuz ao Irã

Fontes: g1 · CNN Brasil