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A fratura no centro comercial

Análise · Clara Verdi Há uma imagem que resume a fragilidade dos nossos pactos com a matéria.

A fratura no centro comercial
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

Há uma imagem que resume a fragilidade dos nossos pactos com a matéria. Não a terra tremendo, que é um evento geológico, quase abstrato em sua escala, mas o esqueleto de um shopping center exposto contra o céu cinzento de Kumamoto. O Aeon Mall de Kashima, como tantos outros templos do consumo globalizado, foi concebido para ser um lugar de previsibilidade absoluta, um não-lugar onde o único imprevisto aceitável seria o esgotamento de um produto na prateleira. A terra, com um tremor de dez quilômetros de profundidade — uma fúria superficial, quase um insulto —, rasgou essa ilusão.

O Japão é o país que transformou a convivência com o abismo sísmico em uma forma de engenharia, uma estética e uma filosofia. Seus arranha-céus dançam com o tremor, seus manuais de sobrevivência são catecismos laicos. A disciplina diante da catástrofe é parte do contrato social. Mas a explosão dentro do shopping durante o terremoto introduz um elemento de desordem que escapa até mesmo a esse rigoroso repertório do desastre. A causa é desconhecida, dizem as autoridades, mas o efeito é claríssimo: o caos dentro da ordem, o fogo no coração do sistema.

Não se trata de ver nisso uma vingança da natureza ou qualquer outra metafísica barata. Trata-se de observar o que acontece quando a força bruta do planeta colide não com um templo antigo ou uma aldeia de pescadores, mas com o símbolo máximo da nossa era: o centro comercial. Um lugar desenhado para nos proteger do tempo, do clima e da própria ideia de finitude. E é precisamente ali, entre os escombros de lojas e praças de alimentação, que os bombeiros buscam corpos, que a polícia fala em mortos em “número considerável”. A vida, interrompida no meio de uma transação.

A imagem do shopping destruído em Kashima não é sobre a força do Japão em se reerguer, narrativa que virá nos próximos dias com a eficiência de sempre. É sobre a vulnerabilidade de um modelo de vida que se pretende asséptico e seguro. O chão que some sob os nossos pés, de repente, não é apenas o solo da ilha de Kyushu. É o fundamento de uma certeza que vendemos a nós mesmos, embalada a vácuo, com data de validade impressa.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Terremoto no Japão deixa shopping parcialmente destruído e mortos

Fontes: g1 · UOL