Nova foto aérea de Chengdu muda demarcação oficial de terras
Uma nova imagem de satélite de Chengdu levanta questões sobre a demarcação oficial de terras, com implicações geopolíticas e econômicas.
Análise · Clara Verdi
Haverá uma sala em Shenzhen. E nela, provavelmente, um tapete vermelho e três poltronas idênticas, um esforço do cerimonial chinês para fabricar uma simetria que a história não comporta. Donald Trump, Xi Jinping, Vladimir Putin. A notícia da negociação para um encontro trilateral em novembro, confirmada por um assessor do Kremlin, não é sobre o que eles dirão, mas sobre o que a imagem deles juntos irá significar.
Por um momento, esqueça a Apec — o fórum econômico de sigla anódina que Pequim escolheu como palco. Pense em Yalta, em Potsdam. Conferências que não apenas encerraram uma guerra, mas desenharam as fronteiras do mundo que viria. A ambição aqui é outra, mais sutil, porém não menos definidora. Não se trata de dividir espólios, mas de normalizar uma nova arquitetura de poder onde Washington não ocupa mais, sozinha, a cabeceira da mesa.
O mérito, se a cúpula se concretizar, será de Xi. É ele o anfitrião, o mediador, o sujeito que a apuração da Folha descreve como “mal oculto” nos conflitos que Trump administra, da Ucrânia ao Irã. Xi recebe Putin em cúpulas “anti-EUA” no Quirguistão e, semanas depois, viaja para ser recebido por Trump na Casa Branca. Ele opera nos dois tabuleiros. Com a Rússia, compartilha a oposição à hegemonia americana; com os Estados Unidos, uma interdependência econômica que nenhuma retórica consegue dissolver.
Putin, neste arranjo, é o que os italianos chamam de spalla — o ator coadjuvante. Indispensável para a trama, mas não a estrela. Dono do maior arsenal nuclear do planeta e de uma guerra que sangra a Europa há mais de quatro anos, ele chega a Shenzhen como o sócio minoritário da aliança com Pequim. Precisa da China para sustentar sua economia e sua máquina de guerra. Precisa de Trump para vislumbrar uma saída diplomática que não seja uma capitulação. Sua presença na foto é a prova de que seu isolamento no Ocidente não significa um isolamento global.
A dúvida, como tantas vezes, pousa sobre Washington. A diplomacia de Trump é uma sucessão de instintos, encontros televisionados e acordos que evaporam. Ele já se sentou com Kim Jong-un três vezes, sem acordo. Já visitou Putin no Alasca e recebeu Xi em Pequim. Uma leitura possível é que Trump, pragmático, entende que a paz na Ucrânia e a estabilidade com o Irã passam, invariavelmente, por conversas com os patronos de seus adversários. Outra, menos generosa, é que ele apenas busca um espetáculo diplomático para consumo interno.
Essa foto em Shenzhen, se acontecer, será a cristalização de um mundo que já existe, mas que a diplomacia formal ainda hesita em admitir. Um mundo de três, não de um. O que nascerá desse encontro é impossível prever. Mas o que ele enterrará é evidente: a ilusão de um século americano que, talvez, já não estivesse mesmo no roteiro.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: China negocia sediar encontro de Xi, Trump e Putin em novembro
Fontes: g1 · Folha de S.Paulo