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Ministro zerou fila de milhões com critério de um homem só

Luciano Aragão Wolney Queiroz, ministro da Previdência Social, zerou fila de milhões. Sua decisão de usar um critério de um homem só gerou questionamentos.

Ministro zerou fila de milhões com critério de um homem só
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Luciano Aragão

Wolney Queiroz, o ministro da Previdência Social, escolheu um jeito peculiar de anunciar que zerou uma fila de milhões de brasileiros: comparou o INSS a uma loja com mais vendedores do que clientes. A metáfora, celebrada no Palácio do Planalto ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tem a virtude da clareza. E seu limite. Uma loja vazia pode significar eficiência ou irrelevância. O governo aposta na primeira.

Os números apresentados são expressivos. A montanha de 3,12 milhões de pedidos de perícia que se acumulava em fevereiro derreteu. Em agosto, o número de novos requerimentos superou o de pendências. Na semântica ministerial, a “fila” virou “fluxo”. O prazo legal para uma decisão, de 45 dias, passou a ser cumprido na média. O tempo médio de espera caiu para 34 dias. É uma vitória administrativa. Silenciosa, mas palpável para quem depende do benefício.

A receita do resultado não é um mistério de Estado. Envolveu a nomeação de servidores concursados, o uso de telemedicina em 865 agências, a permissão para perícias baseadas apenas em documentos e, claro, o incentivo clássico da máquina pública: mutirões de fim de semana e bônus por produtividade. O plano, diz o ministro, gerou 2 milhões de atendimentos adicionais apenas em 2026. Fez-se o que se deveria ter feito antes.

O discurso da humanização, proferido por Lula, busca dar contornos políticos a uma conquista gerencial. É um trunfo útil. Diferente de uma obra ou de um programa social que precisa de propaganda, o fim da espera no INSS é sentido diretamente no cotidiano de uma parcela imensa da população. São 1,3 milhão de pedidos por mês, 43 mil por dia. É gente com nome, endereço e, na maioria dos casos, urgência.

O quadro, porém, não está livre de sombras. O próprio ministério admite a existência de um asterisco: um grupo de 224 mil pessoas que ainda aguarda uma decisão para além do prazo legal. São os “casos especiais”, na definição do secretário-executivo Felipe Cavalcante. É um contingente maior que a população de muitas capitais brasileiras. Para eles, a loja do ministro Queiroz continua com as portas fechadas. O fluxo não chegou.

A grande questão, não respondida na cerimônia, é se a estrutura montada para esvaziar a represa consegue agora dar conta do rio que não para de correr. A máquina movida a bônus e mutirões é sustentável a longo prazo? Ou foi apenas o remédio para uma crise aguda, que cederá lugar à febre de sempre?

Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.

Leia o factual: INSS zera fila de perícias em agosto e cria fluxo de atendimentos

Fonte: Agência Brasil