A exceção saudita
Análise · Clara Verdi Há uma palavra para o que se assina quando não se quer usar a palavra exata: pacífico.
Análise · Clara Verdi
Há uma palavra para o que se assina quando não se quer usar a palavra exata: pacífico. O acordo de cooperação nuclear que os Estados Unidos firmaram com a Arábia Saudita é descrito como tal, uma fórmula diplomática que serve para acalmar os despachos e, sobretudo, para ocultar a fratura que ele expõe na política externa americana. O que se concede a Riad não é apenas tecnologia para reatores ou acesso a combustível; o que se concede, ao que tudo indica, é a permissão para enriquecer urânio em seu próprio solo. Um privilégio que Washington, em sua longa história de pactos atômicos, só havia outorgado ao Japão e à Índia. Nem mesmo os vizinhos Emirados Árabes Unidos, parceiros de primeira hora, receberam tal licença.
O detalhe técnico — enriquecer urânio — é o centro de toda a questão, a fronteira tênue entre a energia e a bomba. É precisamente o que os Estados Unidos e Israel usaram como argumento por anos, décadas, para justificar sua hostilidade implacável ao programa nuclear iraniano. A lógica, repetida em todos os fóruns internacionais, era que a posse dessa capacidade por um regime como o de Teerã representava uma ameaça existencial. Agora, essa mesma capacidade é entregue a uma monarquia absolutista em uma região onde a estabilidade é uma miragem e os conflitos se movem como as dunas do deserto.
O paradoxo do deserto
O que mudou? Não foi a física do átomo, mas a gramática do poder. O texto integral do acordo permanece secreto, mas seu subtexto é transparente. Para a Casa Branca, trata-se de garantir “grande acesso para empresas americanas” e, talvez, de amarrar o reino saudita a um futuro em que o reconhecimento de Israel se torna uma moeda de troca inescapável. Para Riad, é uma questão de status e dissuasão. Ver o Irã, seu adversário teológico e geopolítico, avançar em seu programa nuclear sem obter uma capacidade simétrica era uma impossibilidade estratégica.
“Se você consegue produzir seu próprio combustível nuclear, você se torna um risco muito maior”, afirmou Rosemary Kelanic, do centro de estudos Defense Priorities.
A frase, de uma simplicidade brutal, desfaz a névoa da diplomacia. O acordo não inaugura uma era de energia limpa no Golfo; ele oficializa uma nova fase na corrida armamentista do Oriente Médio, sob a bênção paradoxal de quem sempre se arvorou o direito de impedi-la. Ao criar a exceção saudita, os Estados Unidos não contiveram uma ameaça. Apenas escolheram qual das ameaças lhes parece, no momento, mais conveniente.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: EUA e Arábia Saudita firmam acordo nuclear pacífico
Fontes: g1 · BBC News Brasil