A estabilidade dos números e o ruído da política
Análise · Beatriz Fonseca A pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira, 24 de julho, revela uma fotografia da sucessão presidencial marcada…
Análise · Beatriz Fonseca
A pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira, 24 de julho, revela uma fotografia da sucessão presidencial marcada pela inércia. Nela, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece com 48% das intenções de voto em um cenário de segundo turno, contra 43% do senador Flávio Bolsonaro (PL). Os números são virtualmente idênticos aos do levantamento anterior, de 20 de junho, quando o placar era de 47% a 43%. A estabilidade, mais do que a vantagem de cinco pontos, parece ser o principal dado político que emerge do levantamento.
Esta foi a primeira pesquisa realizada após a confirmação, por parte dos Estados Unidos, de uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, que entrou em vigor em 22 de julho. O evento mobilizou os dois principais postulantes. Flávio Bolsonaro viajou aos EUA em uma tentativa de negociação. Lula, por sua vez, atribuiu a responsabilidade ao senador, classificando a medida como um "ataque à soberania". O esforço de ambos, contudo, não parece ter produzido efeito prático nas intenções de voto. O eleitorado, ao que tudo indica, permaneceu fixo em suas posições.
Em minha avaliação, essa rigidez sugere que os dois campos políticos estão consolidados em seus respectivos patamares. O dado é reforçado pelos índices de rejeição: 48% dos eleitores afirmam que não votariam em Flávio Bolsonaro de jeito nenhum, e 46% dizem o mesmo sobre Lula. Com tetos tão próximos e tão altos, o espaço para crescimento depende de uma conversão de votos que, até aqui, os acontecimentos políticos não foram capazes de gerar. A disputa se dá em um corredor estreito, e cada ponto percentual passa a ter um peso definidor.
O instituto ouviu 2.004 eleitores entre os dias 22 e 24 de julho. A margem de erro, de dois pontos percentuais, acomoda as pequenas variações observadas desde maio. Desde então, a diferença entre os dois candidatos em um confronto direto oscila entre dois e cinco pontos. É um equilíbrio que se mantém mesmo quando a pauta se move de crises domésticas para agendas de política externa. A questão que se coloca, portanto, não é sobre qual evento pode alterar o cenário, mas se algum evento, de fato, tem essa capacidade.
— Beatriz Fonseca
Beatriz Fonseca — Política nacional — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Datafolha: Lula tem 48% e Flávio Bolsonaro 43% no 2º turno
Fontes: g1 · Folha de S.Paulo