Alemanha lida com crise de eletricidade e riscos de desabastecimento
A escassez de energia na Alemanha eleva preocupações com o abastecimento e impacta o dia a dia da população.
Análise · Clara Verdi
Há uma palavra alemã, intraduzível, para a ansiedade que precede o desastre: Torschlusspanik, o pânico de ver um portão se fechar. Ela parece descrever a atmosfera nos campos ao redor de Bergheim, onde policiais vasculham a grama molhada perto de uma subestação de energia, procurando o que não se vê. Buscam o autor de um "vandalismo premeditado", o segundo em 24 horas contra a rede elétrica do país. O portão, aqui, é o da normalidade.
O governo alemão fala em guerra híbrida, uma expressão que serve para nomear a violência que não se assume como guerra. O dedo aponta para Moscou, um dia depois de Berlim acusar o Kremlin de tentar abater um avião de carga ucraniano com um drone no aeroporto de Leipzig. A chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, foi direta: terrorismo de Estado. Moscou nega, como sempre nega, citando a falta de provas.
A sabotagem em Bergheim, no entanto, não precisou de provas para atingir seu alvo. O dano material foi contido: o fornecimento de energia não foi interrompido, embora cinco unidades de usinas termelétricas, com uma capacidade somada de 4.200 megawatts, tenham saído da rede por um momento. O dano real é outro. Ele está na desconfiança que se instala, na fragilidade exposta das infraestruturas que sustentam a vida cotidiana. A estabilidade da rede, como a estabilidade de uma nação, depende menos de sua robustez física do que da crença coletiva nessa robustez.
Esta crença se fratura em um momento preciso. No fim de semana, haverá uma eleição estadual e a Alternativa para a Alemanha, um partido que não esconde sua simpatia por Moscou, lidera as pesquisas. A coincidência entre o ataque silencioso aos cabos de energia e a ascensão de uma força política que quer renegociar a relação com o suposto agressor pode ser apenas isso, uma coincidência. Mas na política, como na física, a energia não se dissipa; ela se transforma. O medo de um apagão se converte em combustível eleitoral, embora não seja possível saber, ainda, para qual motor.
O que se investiga perto de Bergheim não é apenas um crime técnico. É a perfuração deliberada na fina membrana da segurança alemã, um lembrete de que o conflito no leste europeu não se contém em suas fronteiras. Ele viaja pelos dutos, pelas ondas de rádio, pelos fios de alta tensão. E deixa uma pergunta suspensa sobre a primeira economia da Europa: quanta pressão a rede suporta antes de ceder?
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Alemanha investiga 2º ato de sabotagem à rede elétrica em 24h
Fontes: g1 · CNN Brasil