A dívida da Braskem e o fim de um ciclo
Análise · Ricardo Mendes Dez bilhões e trezentos milhões de dólares.
Análise · Ricardo Mendes
Dez bilhões e trezentos milhões de dólares. O número, por si, já bastaria para dimensionar o pedido de recuperação extrajudicial da Braskem, mas seu significado é mais profundo. Ele encerra um período de 60 dias de proteção contra credores e inaugura outro, de negociação formalizada, para uma dívida que espelha tanto a crise de um setor quanto as feridas abertas de uma companhia.
A recuperação extrajudicial é o instrumento para quem já tem um esboço de acordo, uma negociação privada que busca a chancela da Justiça. Distingue-se da recuperação judicial, que é a intervenção supervisionada desde o início. A escolha da Braskem sinaliza que a conversa com os credores — onde se encontram alguns dos maiores bancos do país — existe, mas chegou a um impasse. O tempo acabou. Agora, a negociação ocorre sob o rito processual.
O pano de fundo setorial é conhecido. A petroquímica global vive um ciclo de excesso de oferta e compressão de margens. A demanda não reage na mesma velocidade que a capacidade produtiva instalada. Para a Braskem, isso se traduziu em um custo de produto vendido que chegou a consumir 96% da sua receita líquida. Uma operação que trabalha com margens residuais tem pouca ou nenhuma capacidade de gerar caixa para honrar serviço de dívida nesta magnitude.
A estrutura da dívida é o centro do problema. Boa parte está denominada em títulos no exterior, o que a torna suscetível à flutuação cambial, um fator de risco que a política monetária brasileira recente ajudou a mitigar, mas que não elimina. A proposta apresentada por uma de suas controladoras, a IG4, é um alongamento dos prazos por cinco anos, com carência de juros por 30 meses. Não há menção a deságio, o termo técnico para o perdão de parte do principal da dívida, nem a conversão em participação acionária. É uma tentativa de empurrar o vencimento para um futuro em que se espera um cenário macroeconômico e setorial mais favorável.
Os credores, por sua vez, exigiram mais garantias e um novo aporte de US$ 700 milhões. A recusa da companhia levou ao esgotamento do prazo e ao pedido de recuperação. É o jogo clássico: de um lado, a empresa tenta preservar o máximo de seus ativos e de sua estrutura de capital; do outro, os credores buscam proteger seu crédito.
Ainda não está claro se o desenho proposto será suficiente para obter a adesão necessária para a homologação do plano. A proposta pode ser vista como otimista demais por parte dos credores, que observam não apenas a crise do setor, mas o passivo bilionário e ainda não totalmente dimensionado da exploração de sal-gema em Alagoas.
A reestruturação da Braskem não é apenas o maior caso do tipo no país. É um teste para a capacidade de negociação entre uma companhia de capital intensivo e um sistema financeiro que se tornou mais criterioso após uma sequência de quebras e reestruturações. O que acontece em um processo deste tamanho reverbera por toda a cadeia de crédito. Quantos outros setores, com margens igualmente espremidas pelos juros, observam este caso para balizar suas próprias estratégias?
Ricardo Mendes — Economia — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Braskem pede recuperação extrajudicial para dívida de US$ 10,3 bi
Fontes: g1 · CNN Brasil