A corrosão da verdade como estratégia
Análise · Beatriz Fonseca O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) adiou, na quinta-feira, 13, uma reunião para definir punições sobre o uso…
Análise · Beatriz Fonseca
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) adiou, na quinta-feira, 13, uma reunião para definir punições sobre o uso de inteligência artificial em campanhas. A Corte ainda precisa decidir sobre um vídeo produzido por IA do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), usado na convenção que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) ao Planalto no final de julho. O adiamento sem nova data expõe a dificuldade institucional em regular uma tecnologia cuja principal consequência política talvez não seja a mais óbvia.
A preocupação imediata, tanto de autoridades quanto de parte do eleitorado, concentra-se na possibilidade de um vídeo falso decidir uma eleição. Sam Stockwell, pesquisador do Instituto Alan Turing, no Reino Unido, estudou casos como o da Irlanda, onde um *deepfake* de 2025 mostrava uma candidata desistindo da disputa, ou o da Alemanha, no mesmo ano, com vídeos falsos sobre ameaças no dia da votação. No entanto, sua conclusão é que não há, até o momento, evidência de que a tecnologia tenha sido o fator determinante em qualquer resultado eleitoral. A apuração de votos é complexa, sujeita a múltiplos fatores.
Na minha avaliação, o argumento de Stockwell desloca o eixo do problema de maneira fundamental. O risco mais concreto da inteligência artificial generativa na política não parece ser a manipulação direta do resultado, mas a erosão do que ele chama de “espaço informacional”.
A IA está corroendo a confiança no nosso espaço informacional e, crucialmente, também inflamando as divisões políticas.
Quando a distinção entre o real e o fabricado se torna uma tarefa árdua para o cidadão comum, a própria noção de verdade verificável entra em colapso. O objetivo de uma campanha que utiliza essas ferramentas pode não ser convencer o eleitor de uma mentira específica, mas sim instilar uma desconfiança generalizada sobre tudo que é dito, visto e ouvido. Nesse ambiente, a informação perde seu valor como alicerce para o debate público e a confiança nas instituições, já fragilizada, se degrada ainda mais.
A questão para o TSE, portanto, transcende a análise de um caso específico. Trata-se de como preservar as condições mínimas para um debate democrático em que os fatos ainda importam. A punição a uma campanha pode estabelecer um precedente, mas a tecnologia evolui mais rápido que a jurisprudência. E enquanto a regulação não chega, o terreno da política vai se tornando mais pantanoso.
O que acontece quando a dúvida se torna a única certeza?
Beatriz Fonseca — Política nacional — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Deepfakes nas eleições preocupam autoridades e plataformas digitais
Fontes: Folha de S.Paulo · BBC News Brasil