A coreografia da força bruta
Análise · Clara Verdi Há a retórica da força, e há a sua aritmética.
Análise · Clara Verdi
Há a retórica da força, e há a sua aritmética. A retórica se alimenta de frases de efeito, como o “agora é a nossa vez” proferido por Donald Trump na Casa Branca, ou a promessa de “dar uma surra” em Teerã, como se a geopolítica fosse uma briga de pátio de colégio. A aritmética, mais discreta e infinitamente mais determinante, é a contagem de mísseis no inventário do Pentágono.
Os ataques americanos contra o Irã, reiniciados nesta quarta-feira, não são o início de uma nova fase do conflito, mas a continuação de uma coreografia brutal, interrompida não pela diplomacia, mas pela logística. A pausa recente nas hostilidades, que se seguiu a uma troca quase diária de fogo em julho, não nasceu de uma súbita vontade de paz. Nasceu de um relatório interno que alertava para o baixo estoque de mísseis Patriot, os únicos capazes de interceptar os projéteis balísticos iranianos. A força americana, ao que parece, precisou de um momento para reabastecer.
Neste teatro do poder, a vulnerabilidade é um detalhe técnico a ser corrigido, não uma condição a ser admitida. É revelador que o ataque iraniano que matou três militares americanos na Jordânia tenha ocorrido, segundo o New York Times, por uma falha no sistema antimísseis. A tecnologia, o escudo impenetrável da maior potência militar do mundo, piscou. E nesse instante, corpos reais pagaram o preço. A resposta, portanto, não é apenas retaliação; é uma reafirmação de infalibilidade, uma demonstração de que a máquina voltou a funcionar no seu ritmo máximo.
A imagem que se consolida é a de uma escalada gerida por estoques. Os ataques da Guarda Revolucionária, os drones contra navios-tanque ao largo do Egito, os bombardeios americanos e sauditas sobre milícias no Iraque — cada movimento parece calculado não apenas pelo impacto estratégico, mas pela capacidade material de sustentá-lo. Trump fala em acordo e, na mesma frase, em atingir o inimigo com “muita força”. Não há contradição nisso. É a lógica da exaustão: primeiro se esgota o arsenal do outro, ou o próprio, para depois, talvez, conversar. A paz como o último item da lista, quando a munição acabar.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
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