A Copa que não acaba nunca
Análise · Marcos Tibúrcio Doze anos. Uma criança nascida no dia em que se prometeu o futuro ao futebol do Piauí já sabe conjugar verbo, chutar…
Análise · Marcos Tibúrcio
Doze anos. Uma criança nascida no dia em que se prometeu o futuro ao futebol do Piauí já sabe conjugar verbo, chutar com as duas pernas e, talvez, desconfiar de promessas. Em 2014, o Brasil recebeu a Copa do Mundo. Em 2026, com outra Copa já em andamento nos gramados do norte, a Fifa celebra a inauguração de um Centro de Desenvolvimento em Teresina. Outro brotou em Serra, no Espírito Santo. O presidente da entidade, Gianni Infantino, usou as redes para bater palmas. Falou em “marco”, em “notável conquista”.
A nota oficial tem o cheiro de tinta fresca das coisas novas. Fala em “infraestrutura de alta qualidade” para meninos e meninas sonharem mais alto. Menciona um Fundo de Legado, de mais de 100 milhões de dólares, que irrigaria o futebol juvenil e feminino pelo país. O dinheiro sempre esteve lá. O tempo é que parece correr em outro ritmo quando a bola não está rolando sob os holofotes de uma final.
O tempo da arquibancada
Na arquibancada, o tempo é outro. É o tempo do sol que racha o cimento à tarde, da corneta que não perdoa, da esperança que se renova a cada domingo, mesmo quando o time é modesto e o campo, um castigo. Doze anos, no relógio do torcedor, são três Copas do Mundo, incontáveis campeonatos estaduais, a ascensão e a queda de heróis locais que nunca chegarão a uma nota oficial da Fifa.
Infantino, de seu gabinete na Suíça, agradece ao presidente da CBF, Samir Xaud, por “transformar essa visão em realidade”. Visão é uma coisa. A poeira que subia do terreno baldio onde hoje existe um centro de treinamento, por mais de uma década, era outra bem diferente. Era a realidade. Uma realidade de espera, de burocracia, de um legado que parecia ter ficado esquecido em alguma gaveta empoeirada.
Agora, as portas se abrem. A grama está cortada. As traves, pintadas de branco. E a foto oficial estampa o sorriso de quem entrega a obra. É justo celebrar. Mas é impossível esquecer a espera. O futebol, ensina a vida, não é feito de inaugurações. É feito de continuidade. Do treino de terça-feira chuvosa, do trabalho de base que não gera manchete, da peneira que revela um garoto franzino de drible desconcertante.
Que o tempo da burocracia tenha enfim acabado para dar lugar ao tempo da bola. E que os meninos e meninas do Piauí e do Espírito Santo não precisem esperar outros doze anos para que o sonho vire algo mais que um discurso.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge