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A Copa do Mundo em compasso de espera

Análise · Marcos Tibúrcio O futebol não se joga apenas no campo.

A Copa do Mundo em compasso de espera
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Análise · Marcos Tibúrcio

O futebol não se joga apenas no campo. Às vezes, as partidas mais decisivas acontecem em salas refrigeradas, longe do sol e do grito da geral, com homens de gravata no lugar dos de chuteira. Foi numa dessas salas que a Europa, em bloco, disse não à Fifa. Um não unânime, seco, que ecoou de Lisboa a Vladivostok e deixou o calendário do esporte mundial suspenso por um fio.

Gianni Infantino, o homem à frente da Fifa, apresentou o que parecia ser a galinha dos ovos de ouro: uma nova empresa, a Fifa Forward Enterprise, para gerir o lado comercial do espetáculo. Venderia uma fatia minoritária dela, coisa de 4,2 bilhões de dólares, e prometia irrigar os cofres das 211 federações com uma chuva de dinheiro jamais vista. Aos olhos da planilha, era irrecusável. A promessa de mais de R$ 100 milhões para cada país membro até 2030 soava como música.

Mas o futebol, repito, não é planilha. A Uefa não ouviu música; ouviu o rangido de uma porta se abrindo para o desconhecido. O que é vender parte do controle comercial do seu próprio jogo? É entregar as chaves de casa a um estranho em troca de uma reforma na sala. A Europa, que organiza os campeonatos mais ricos e televisionados, sentiu o cheiro de poder escorrendo por entre os dedos.

A resposta foi uma daquelas que mudam a história. Não uma nota de repúdio, não um debate para a próxima assembleia. Foi um boicote. Imediato e total. Se a proposta seguir de pé, não haverá seleções europeias em torneios da Fifa. O que significa uma Copa do Mundo Feminina no Brasil, em 2027, sem Alemanha, sem Espanha, sem França. Significa uma Copa masculina, essa que agora nos ocupa, esvaziada de seus protagonistas históricos. Um Mundial sem seus campeões.

O movimento não é isolado. Concacaf e a Confederação Asiática engrossaram o coro. Juntas, as três confederações representam 143 votos, a maioria absoluta que pode dobrar qualquer ambição em Zurique. O que se desenha não é uma mera disputa por dinheiro, mas uma guerra fria pela alma e pelo comando do futebol. De um lado, a Fifa com sua visão de um negócio global e centralizado. Do outro, os continentes que se recusam a ser apenas filiais de um império em construção.

Enquanto a bola rola no Mundial de 2026, o jogo de verdade está parado, à espera do apito final de uma disputa que não terá prorrogação. Ou a Fifa recua, ou teremos que nos acostumar com um futebol irreconhecível.

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Seleções europeias boicotam Fifa por venda de ações de subsidiária

Fonte: ge