ONU calcula mortos na Síria com bombardeios aéreos
Conselho de Segurança da ONU revela que 42 bombas aéreas foram lançadas, apontando para um alto número de vítimas na Síria.
Análise · Clara Verdi
Quarenta e duas bombas aéreas. O número, seco, foi pronunciado no Conselho de Segurança da ONU e carrega o peso de uma década. Pela primeira vez desde 2014, a Organização para a Proibição de Armas Químicas verificou a destruição do que restava do arsenal de Bashar al-Assad — neste caso, munições vazias, categoria 3, a casca do horror que um dia continha agentes neurotóxicos. O ato é apresentado pela nova liderança síria como um gesto de saneamento, um país que limpa os porões para se reapresentar ao mundo.
Mas a história nunca é tão simples. A burocracia internacional tem seu próprio teatro, e o palco da ONU é o principal deles. Enquanto a alta representante Izumi Nakamitsu detalhava a operação com a precisão técnica que o cargo exige — "destruição irreversível" —, o embaixador sírio, Ibrahim Olabi, construía sua própria narrativa. A Síria, segundo ele, estava "protegendo o mundo". Um espetáculo de responsabilidade cívica, encenado sobre as ruínas de uma guerra civil que matou mais de 500 mil pessoas, muitas delas com as armas que agora se desmantelam.
O roteiro, no entanto, continha uma virada. Olabi aproveitou a respeitabilidade do momento para mirar Tel Aviv. Os ataques israelenses, disse, dificultam a busca por outros arsenais, pondo em risco as equipes. A queixa transforma um ato de desarmamento em um instrumento de política externa. A destruição das bombas de Assad serve menos a uma expiação do passado e mais a uma acusação no presente. O que se vê não é um pedido de perdão, mas o uso da própria culpa como arma diplomática. É um movimento arriscado, cuja eficácia dependerá de como as chancelarias lerão a performance.
A contabilidade dos crimes da era Assad mal começou — dezoito suspeitos foram presos, e Damasco prepara as primeiras audiências. As 42 bombas são apenas um capítulo material de um inventário moral muito mais vasto. Destruir o invólucro do veneno é a parte fácil. Difícil é apagar a memória do que ele fez.
Nesse teatro de gestos calculados, uma pergunta permanece, incômoda, fora dos microfones do Conselho. Quantas bombas não foram encontradas?
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Síria destrói 42 bombas aéreas de programa químico de Assad
Fontes: g1 · Folha de S.Paulo