A contabilidade dos corpos em Pereira
Análise · Clara Verdi Duzentos e vinte e quatro. O número, anunciado pelo governo de Abelardo de la Espriella, é uma cifra oficial, fria, provisória.
Análise · Clara Verdi
Duzentos e vinte e quatro. O número, anunciado pelo governo de Abelardo de la Espriella, é uma cifra oficial, fria, provisória. Chegou na terça-feira, depois de uma noite inteira de escavadeiras e mãos nuas remexendo os escombros na região cafeeira da Colômbia. Na véspera, eram 132. Antes, 179, na conta da Associação de Capitais. A matemática da tragédia é sempre uma assíntota, a curva que se aproxima do número real de mortos sem jamais alcançá-lo de imediato.
O chão tremeu na segunda de manhã, 7.4 na escala que mede o invisível. O que se vê agora, em Cali e Pereira, são as consequências. Edifícios de vários andares reduzidos a uma pilha de concreto, a torre de uma catedral em Manizales rachada — uma ferida na pedra, eco da ferida na terra. Pacientes de hospitais atendidos na rua. A normalidade se desfaz em um minuto. O que resta é a urgência.
Nesse tipo de evento, a linguagem da imprensa e dos governos se torna inevitavelmente burocrática. Falam em “balanço”, “contagem”, “equipes de resgate”, “resposta à emergência”. É uma tentativa de ordenar o caos, de traduzir o horror em um comunicado. Mas o que escapa a essa linguagem é o tempo suspenso de quem espera. A busca por sobreviventes — que em Cali eram 239 pessoas presas nos escombros, segundo uma contagem da prefeitura — é uma corrida contra o relógio biológico, não o do noticiário.
Voluntários, policiais e soldados se juntam às equipes de emergência. Em uma paisagem de ruínas, essa mobilização é o que resta do tecido social. É a resposta humana a uma força que não tem nada de humano. Enquanto as autoridades contam os corpos que saem, esses homens e mulheres procuram os corpos que ainda respiram.
A terra colombiana, que produz o café que acorda o mundo, agora vive um luto que não deixa ninguém dormir. E sob cada laje de concreto virado, a mesma pergunta sem resposta: quantos ainda estão ali?
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Terremoto na Colômbia eleva número de mortos
Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil · UOL