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A contabilidade da guerra

Análise · Clara Verdi O anúncio de Donald Trump, como quase tudo que emana de seu governo, não é uma decisão de Estado no sentido clássico,…

A contabilidade da guerra
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

O anúncio de Donald Trump, como quase tudo que emana de seu governo, não é uma decisão de Estado no sentido clássico, mas uma declaração performática de poder. Ao decretar, via rede social, que fundos iranianos sob controle americano pagarão por futuros danos a navios, ele desloca o conflito do campo de batalha para o balanço contábil. A ameaça não é mais apenas a bomba sobre a ponte ou a usina, como dito na véspera; é a caneta do contador, riscando o patrimônio do inimigo para cobrir um prejuízo que ainda nem existe. A guerra se torna uma questão de execução de dívida.

Não há, no texto presidencial, menção a tribunais internacionais, a resoluções diplomáticas, a qualquer mecanismo jurídico que legitime o ato. A única justificativa oferecida é a de que a medida seria “justa e equitativa”. É a justiça do soberano, que não precisa de lei porque ele mesmo se anuncia como a fonte dela. A ausência deliberada de detalhes sobre quais ativos seriam usados ou como a operação se daria não é uma falha de comunicação, mas a essência da própria mensagem: o poder americano não deve satisfações sobre seus métodos. Ele simplesmente informa.

O contexto, essa espiral de ameaças trocadas entre Washington e Teerã sobre o Estreito de Ormuz, revela a natureza do jogo. De um lado, a Guarda Revolucionária iraniana evoca o bloqueio físico, a interrupção do fluxo vital de petróleo, uma arma de geografia e força bruta. Do outro, Trump responde com uma arma do século XXI: o controle sobre os fluxos financeiros globais. É o poder de quem domina não apenas os mares, mas o sistema que precifica o que navega por eles. O ataque a um petroleiro saudita no Mar Vermelho, cuja autoria permanece uma zona cinzenta entre a reivindicação Houthi e a cautela de Riad, serve apenas como o pretexto perfeito para essa nova doutrina.

A declaração de Trump busca transformar o Irã não apenas em um Estado pária, mas em um mau pagador. Os prejuízos, que ele admite poderem ser “muito substanciais”, já estão provisionados. A República Islâmica é colocada na posição de quem assina um cheque em branco para cobrir os custos de sua própria audácia. É uma forma de violência mais fria, mais administrativa, mas não menos potente. Uma forma que dispensa o espetáculo da destruição para se concentrar na eficiência silenciosa da expropriação.

Clara Verdi

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Trump anuncia uso de fundos iranianos para reparar danos a navios

Fontes: g1 · UOL