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A ciência americana como dano colateral

Análise · Clara Verdi O Salão Oval, com seus tapetes e madeiras escuras, sempre foi um palco para a demonstração do poder americano, seja na forma…

A ciência americana como dano colateral
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Análise · Clara Verdi

O Salão Oval, com seus tapetes e madeiras escuras, sempre foi um palco para a demonstração do poder americano, seja na forma de uma lei assinada ou de uma declaração de guerra. Nesta segunda-feira, a caneta de Donald Trump não mirou um inimigo externo, mas uma das vigas da saúde pública construída ao longo do último século: o consenso sobre a vacinação infantil. A ordem executiva que limita o calendário a 11 vacinas essenciais e — mais grave — exige a separação da vacina tríplice viral em três doses distintas, não é apenas um ato administrativo. É a consagração da desconfiança como política de Estado.

A retórica de Trump, ao afirmar que os Estados Unidos aplicam "duas vezes mais doses do que alguns países europeus", soa familiar a quem acompanha o populismo sanitário que vicejou dos dois lados do Atlântico. É um argumento que ignora décadas de pesquisa e a especificidade epidemiológica de cada nação para apelar a um nacionalismo rasteiro, onde "menos" se confunde com "mais seguro". A proposta de desmembrar a vacina contra sarampo, caxumba e rubéola — um imunizante que não existe em doses individuais para crianças nos EUA, segundo apuração da Associated Press — não é apenas uma imprudência médica; é uma fantasia logística perigosa, que expõe as crianças ao risco de doenças evitáveis no intervalo entre as múltiplas consultas que seriam necessárias.

A autoridade perdida

Há um detalhe técnico, quase burocrático, que revela a dimensão do gesto. A autoridade final para exigir vacinas nas escolas não é do governo federal, mas dos estados. A ordem de Trump é, portanto, uma "recomendação", uma pressão política sobre os governos locais. Ele não pode forçar a mudança, mas pode corroer a confiança. E é precisamente aí que reside o seu poder. Ao lado de seu secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr. — ele mesmo uma figura central no movimento antivacina —, Trump usa o púlpito mais poderoso do mundo para validar a suspeita, para transformar a incerteza em virtude. A alegação de que a vacina SCR pode ser "bastante letal" é o golpe final na autoridade da ciência.

Com efeito imediato, meu governo está reconhecendo recomendações de padrão ouro para vacinação infantil de apenas 11 vacinas essenciais.

O que se viu na Casa Branca foi menos um ato de governo e mais um manifesto. Uma declaração de que a evidência científica, laboriosamente construída, pode ser descartada por um capricho presidencial. A imagem de um presidente assinando um decreto contra o próprio establishment de saúde pública de seu país é a metáfora de um tempo em que a autoridade não emana mais do conhecimento, mas da capacidade de mobilizar o medo. A ciência virou apenas mais uma opinião na arena política.

O dano não se mede em estatísticas imediatas de sarampo ou caxumba, mas no tecido social, na confiança que uma população deposita em suas instituições. Quantas décadas serão necessárias para reconstruir a autoridade que uma única assinatura começou a demolir?

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Trump assina ordem para reduzir vacinas infantis a 11 nos EUA

Fontes: g1 · CNN Brasil

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.