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A cidade que para para não parar

Análise · Marcos Tibúrcio São Paulo não costuma fazer concessões.

A cidade que para para não parar
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Marcos Tibúrcio

São Paulo não costuma fazer concessões. A maior cidade do continente vive em estado de congestionamento permanente, uma espécie de guerra de atrito entre os que precisam chegar a algum lugar e a infraestrutura que insiste em não comportar a todos. Mas há exceções. E a Copa do Mundo é uma delas.

O Metrô paulistano vai operar 24 horas ininterruptas entre o sábado e o domingo, com todas as linhas abertas para embarque e desembarque ao longo da madrugada. A medida existe para atender quem vai acompanhar os jogos da Copa — e especialmente o do Brasil. É um gesto logístico, sim. Mas é também um gesto de reconhecimento: a cidade sabe que o futebol reorganiza o tempo das pessoas. E decidiu reorganizar o próprio horário em resposta.

Isso importa mais do que parece. O metrô de São Paulo carrega, em dias normais, uma multidão que preferiria não estar lá — espremida, em silêncio, olhando para o próprio celular. É transporte de necessidade, não de escolha. Quando a cidade abre esse mesmo sistema na madrugada para quem quer celebrar, ela transforma a natureza do serviço. O trem deixa de ser obrigação e vira parte da festa. A plataforma vira antessala do estádio — ou do bar, ou da casa do amigo onde a televisão ficou ligada até as três da manhã.

Tem algo de generoso nessa decisão. E generosidade não é palavra que São Paulo usa com frequência.

Há também uma questão de alcance. Copa do Mundo é o único evento que consegue fazer com que pessoas que nunca pisaram num estádio na vida se mobilizem como se fossem ao Maracanã. O reforço operacional no transporte público significa que esse alcance pode ser democrático — que o sujeito que mora na extremidade de uma linha, longe do centro, também pode ir e voltar sem depender de carro ou de tarifa de aplicativo inflacionada pela demanda do jogo. O metrô, nesse contexto, é quase um ato político.

A Copa começou em 11 de junho, espalhada por três países ao mesmo tempo. O Brasil joga no continente que sediou o torneio, com fuso horário que, pela primeira vez em muito tempo, não exige que o torcedor brasileiro acorde às três da manhã para ver a seleção. O jogo chega em horário civilizado — e São Paulo, ao abrir suas estações pela madrugada, garante que o torcedor possa comemorar, ou lamentar, sem se preocupar com como vai chegar em casa.

É esse o detalhe que transforma infraestrutura em história. Não é a composição tática da seleção, não é a escalação do técnico. É saber que a cidade organizou a si mesma para que ninguém precise ir embora antes do apito final. Que alguém, em alguma sala de reunião da Companhia do Metrô, olhou para o calendário e decidiu que desta vez a cidade não abandona o torcedor na plataforma.

São Paulo raramente faz isso. Quando faz, vale registrar.

Marcos Tibúrcio — Chefia de Esporte, Xaplin

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Metrô de SP terá operação 24 horas no fim de semana para jogo

Fontes: g1 · Folha de S.Paulo