O número que um regime conta — e o que apaga
Análise · Clara Verdi Dez dias separam os terremotos de 24 de junho do balanço divulgado neste sábado pelo governo de Nicolás Maduro: 2.954 mortos…
Análise · Clara Verdi
Dez dias separam os terremotos de 24 de junho do balanço divulgado neste sábado pelo governo de Nicolás Maduro: 2.954 mortos, 16.592 feridos. O número cresceu 309 pessoas em relação ao comunicado anterior. Cresceu, também, o silêncio em torno do que ele não diz.
Há uma tradição longa, e não exclusivamente venezuelana, de regimes autoritários administrarem catástrofes como administram eleições — com o mesmo cuidado com que se escolhe o que aparece e o que desaparece. A Venezuela de Maduro herdou do chavismo a arquitetura do controle informacional, mas a aprofundou na medida em que o Estado foi perdendo capacidade real de resposta e precisou, como compensação, ampliar o controle narrativo. O número oficial de mortos, nesse contexto, não é apenas dado — é instrumento.
Que críticos apontem subestimação das cifras não é detalhe. É o centro do problema. Em desastres de magnitude semelhante ocorridos em países com infraestrutura de saúde precária e comunicação controlada, a diferença entre o número oficial e o real costuma ser significativa. A Venezuela reúne as duas condições de maneira agravada: um sistema público de saúde que entrou em colapso muito antes dos terremotos, e uma imprensa independente reduzida a operações de resistência. Quando o Estado é ao mesmo tempo o único enumerador e o principal interessado no resultado da contagem, a epistemologia do desastre se torna indistinguível da propaganda.
O que se discute não é a tragédia em si — devastadora por qualquer métrica — mas a capacidade de nomeá-la com precisão, que é a condição mínima para respondê-la com seriedade.
Do ponto de vista geopolítico, a situação coloca em posição desconfortável os países que mantêm relações diplomáticas funcionais com Caracas — o Brasil entre eles. Solidariedade humanitária com populações afetadas exige, necessariamente, acesso independente à extensão do dano. Sem isso, qualquer ajuda corre o risco de ser absorvida pela máquina de gestão de imagem do regime antes de chegar a quem precisa. Não é hipótese; é padrão documentado em crises anteriores.
A Europa observa com a distância de quem tem seus próprios incêndios — literais e metafóricos — mas a diáspora venezuelana no continente, espalhada por Espanha, Portugal e Itália, confere a essa crise uma ressonância que os números oficiais não capturam. São famílias tentando confirmar sobrevivência de parentes em regiões devastadas, usando redes paralelas de informação porque as oficiais não inspiram confiança. Esse dado humano, o mais concreto de todos, tampouco está no balanço do Ministério das Comunicações.
2.954 é o número que o regime escolheu apresentar ao mundo neste sábado. O número real dos mortos — e, mais ainda, dos ainda vivos que precisam de resposta imediata — permanece, por ora, fora do alcance de qualquer verificação independente. Essa opacidade não é consequência da catástrofe. É uma escolha.
Clara Verdi é correspondente Europa da Xaplin.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Venezuela atualiza para 2.954 mortos em terremotos de junho
Fontes: Agência Brasil · Folha de S.Paulo · CNN Brasil · UOL
Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.