A cidade murada por sua própria polícia
Análise · Renata Peixoto Às quatro da manhã, a Avenida Brasil, na altura de Cordovil, deixou de ser uma via expressa. Virou uma fronteira.
Análise · Renata Peixoto
Às quatro da manhã, a Avenida Brasil, na altura de Cordovil, deixou de ser uma via expressa. Virou uma fronteira. Carros em marcha a ré, motoristas na contramão, um engarrafamento que se espalharia até Irajá. A artéria que deveria conectar a Zona Norte ao centro do Rio estava bloqueada não por um acidente, mas por uma decisão de Estado: uma operação do Comando de Operações Especiais da PM no Complexo de Israel. A cidade foi murada por sua própria polícia.
O termo oficial foi fechamento “preventivo”. Prevenir o quê, exatamente? A política de segurança que envia 200 militares para as comunidades de Cidade Alta, Pica-Pau e Cinco Bocas não previne a violência. Ela a desloca. A bala que deveria ser contida no território da operação encontrou o ombro de um motorista de ônibus. Ele não estava na linha de tiro, mas em seu local de trabalho: a garagem da Viação Caprichosa, na Rua Bulhões Marcial, em Parada de Lucas. O CEP dele era o alvo errado no mapa da guerra.
Cidade é política pública concretada. E o que se concretou na madrugada desta sexta-feira foi a falência de um modelo. Quando o Estado precisa interromper o direito de ir e vir de milhares para executar uma operação militarizada em um bairro residencial, ele admite que não controla o território. Pior: ele adota a mesma lógica de quem combate, a da barreira, do cerco, da interdição. A avenida fechada é a materialização de uma cidade partida, onde a vida de quem mora em um CEP define o risco de quem apenas passa por outro.
É uma escolha que ignora a interdependência óbvia: o Complexo de Israel não é uma ilha. É de onde saem e para onde voltam trabalhadores que cruzam a Avenida Brasil. O motorista levado para o Hospital Getúlio Vargas, na Penha, é a prova disso. A sua rotina — chegar à garagem para começar o dia — foi rompida por uma política que enxerga o mapa da cidade como um tabuleiro de combate, não como um tecido de vidas.
Ainda não se sabe o nome do homem baleado, nem o resultado prático da incursão policial. O quadro, portanto, é parcial. Mas o asfalto não mente. Uma via expressa transformada em rota de fuga e um trabalhador ferido antes de iniciar seu turno não são efeitos colaterais. São o método.
Por quanto tempo mais a principal via de uma cidade será tratada como a trincheira de uma guerra sem fim?
Renata Peixoto
Renata Peixoto — Cidades — chefia. Xaplin.
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