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Heitor Graça escreve crônica sobre Dona Elvira e vizinhos

Heitor Graça narra, em sua crônica, os sons e segredos do apartamento de cima, onde morava a misteriosa Dona Elvira.

Heitor Graça escreve crônica sobre Dona Elvira e vizinhos
Capa tipográfica · Xaplin

Crônica · Heitor Graça

Havia um ruído constante, quase melódico, no apartamento de cima, onde morava a Dona Elvira. Era o arrastar da cadeira dela, de rodinhas, sobre o piso de taco. Ia da escrivaninha para a estante, da estante para a mesa de jantar, que eu imaginava coberta de provas. O som atravessava a madrugada, testemunha silenciosa de um trabalho que nunca terminava quando o sinal da escola batia.

Lembrei dela hoje, ao ler que os professores cruzaram os braços por um dia. Não li sobre a Dona Elvira, claro, mas sobre os mais de mil que foram ao Largo do Machado pedir por algo que me parece tão óbvio quanto o sol que bate na minha janela: remuneração pelo trabalho que invade a casa, que rouba o domingo, que vira o ruído da cadeira de rodinhas no meio da noite.

A discussão, me parece, não é apenas sobre o salário que ficou para trás. É sobre o tempo. Um dirigente do sindicato falava em trabalho na escala “7 por 0”, sem descanso, e no número de professores afastados por questões mentais. É a conta que não fecha entre a lousa e a vida. A pandemia espalhou a sala de aula pela casa de todo mundo, e para os mestres, ela nunca mais foi embora de verdade. Ficou ali, num canto, exigindo fichas, planejamentos, a correção daquela redação que o menino do fundão entregou com a letra indecifrável.

Dona Elvira, que era professora de português, me disse uma vez que gostava de corrigir as provas com caneta vermelha, mas sempre fazia um elogio a lápis, para o aluno poder apagar e fingir que nunca precisou de incentivo. Um carinho clandestino no meio da anotação oficial. É um gesto que pede tempo, uma delicadeza que não cabe na pressa.

Não sei se o dia de braços cruzados mudará a rotina dos que vieram depois da minha antiga vizinha. Talvez não, e esta é apenas a fotografia de uma quarta-feira de descontentamento no Catete. Mas fico pensando em quantas madrugadas ainda serão preenchidas pelo som de uma cadeira arrastando, e em quantos elogios a lápis deixam de ser escritos por puro e simples esgotamento.

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

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Fonte: Agência Brasil

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.