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A caneta de R$ 300 e a nova fronteira do peso

Análise · Dra. Camila Torres O mercado farmacêutico tem sua própria gravidade. Ela é medida em patentes, preços e, por fim, no acesso.

A caneta de R$ 300 e a nova fronteira do peso
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Dra. Camila Torres

O mercado farmacêutico tem sua própria gravidade. Ela é medida em patentes, preços e, por fim, no acesso. A caneta injetável de semaglutida, que até março era um universo dominado pela dinamarquesa Novo Nordisk, começou a sentir uma nova força de atração. A aprovação do primeiro genérico à base do princípio ativo, concedida pela Anvisa à farmacêutica EMS, não é apenas um ato regulatório. É um rearranjo de forças no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2 no Brasil.

Até pouco tempo, a conversa sobre análogos de GLP-1 — hormônios que modulam a saciedade no cérebro e o metabolismo no pâncreas — era balizada por valores que beiravam os mil reais por mês. O Ozempic (semaglutida), aprovado para diabetes mas amplamente utilizado para perda de peso, tornou-se um desses fenômenos onde a demanda cultural atropela a indicação clínica formal. Com a patente vencida, a porta se abriu. Primeiro, para o Ozivy (semaglutida), da própria EMS, que chegou às prateleiras em junho com um preço já menor. Agora, para sua versão genérica, que por lei deve custar no mínimo 35% menos que o medicamento de referência. A matemática fria sugere um custo na casa dos R$ 300.

A velocidade do processo é notável. O Ozivy foi lançado, tornou-se o medicamento de referência para semaglutida sintética no país em julho e, menos de um mês depois, a mesma empresa obtém o registro para um genérico atrelado ao seu próprio produto. É uma estratégia de mercado que capitaliza sobre a quebra de uma exclusividade de anos. Para o paciente, o resultado é o que importa: a molécula que redesenhou o tratamento da obesidade se torna, gradualmente, menos proibitiva.

O que essa mudança de preço faz, na prática, é deslocar um medicamento de um patamar de desejo, quase um artigo de luxo, para o de possibilidade terapêutica para um público mais amplo. A obesidade é uma doença crônica, multifatorial, com prevalência crescente. Ter opções farmacológicas eficazes e mais acessíveis é um avanço de saúde pública. A queda de uma patente não é apenas um evento para acionistas; é o momento em que a ciência, antes encapsulada em um monopólio, começa a se difundir pela capilaridade do sistema de saúde.

A questão que fica não é mais sobre a eficácia da semaglutida, já estabelecida em estudos clínicos robustos para seus fins. A pergunta agora é outra, mais complexa e social. Com o preço mais baixo, quem vai usar a caneta de R$ 300? E, mais importante, como vamos garantir que a indicação seja guiada pela necessidade clínica e não apenas pelo preço na etiqueta?

Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Anvisa aprova 1º genérico de semaglutida fabricado pela EMS

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.