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A caixa de metal dos vizinhos

Crônica · Heitor Graça O nosso elevador aqui em Copacabana tem seus caprichos.

A caixa de metal dos vizinhos
Capa tipográfica · Xaplin

Crônica · Heitor Graça

O nosso elevador aqui em Copacabana tem seus caprichos. É um modelo antigo, de portas pantográficas, que às vezes resolve parar meio palmo acima do andar, exigindo do passageiro um pequeno ato de fé ao desembarcar. Nele, a gente aprende o silêncio dos vizinhos. O bom dia do militar aposentado do oitavo, o cheiro de maresia que a moça do surfe deixa no ar, o choro contido do rapaz do terceiro que perdeu o emprego.

É uma caixa de metal onde as vidas se esbarram por trinta segundos. Um microcosmo. E é por isso que a imagem vinda de São Paulo me alcançou. Não foi a notícia do advogado, da polícia, do apartamento revirado. Foi a imagem muda da câmera de segurança, mostrando o que uma caixa daquelas, idêntica à minha, pode conter quando as portas se fecham.

Fico pensando nos vizinhos daquele prédio no bairro do Limão. No que eles ouviram antes de chamar a polícia. Aquele som de briga que atravessa a parede e que a gente, por um instante, tenta ignorar, pensando ser a televisão. A gente sempre pensa que é a televisão. É mais fácil.

A mãe chegou do trabalho e encontrou a cena no corredor. A síndica abriu a porta do seu próprio apartamento para acolher a mulher e a menina. São esses os gestos que a câmera do elevador não pegou, mas que sustentam o mundo. O vizinho que para o que está fazendo, a síndica que oferece um copo d'água, o porteiro que aperta o botão certo, na hora certa. Pequenas decências no corredor.

O homem disse depois que ficou desesperado, que pode ter sido "um pouco ríspido". Bebeu, estava deprimido. Talvez seja verdade, não sei, não sou juiz de ninguém. O que sei é do silêncio que deve ter ficado naquele elevador depois que todos desceram. Um silêncio pesado, diferente daquele que eu conheço quando as portas do meu se abrem no térreo.

Hoje, ao subir, dividi a viagem com uma menina aqui do prédio, a do 401. Ela carregava uma boneca quase do seu tamanho. A porta se fechou e ela, sem me olhar, começou a ajeitar o vestido da boneca com um cuidado de mãe. Um cuidado miúdo, imenso. E por um instante o elevador pareceu o lugar mais seguro do mundo.

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

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Fontes: g1 · UOL