A bomba de Riad
Análise · Clara Verdi O deserto não guarda segredos, apenas os adia.
Análise · Clara Verdi
O deserto não guarda segredos, apenas os adia. A notícia de que Washington e Riad concluíram um acordo de cooperação nuclear — um eufemismo para a porta aberta ao enriquecimento de urânio em solo saudita — não é um relâmpago em céu azul, mas a tempestade anunciada por anos de sussurros diplomáticos e ambições principescas. A mão de Donald Trump assina, mas a caligrafia é a do poder nu, do realismo brutal que sempre regeu as relações no Golfo Pérsico, muito antes de secretários de Energia com nomes intercambiáveis pousarem em Riad para a fotografia oficial.
A arquitetura do acordo é, em si, um tratado sobre a hipocrisia ocidental. Oferece-se a empresas americanas um mercado de dezenas de bilhões de dólares para construir a infraestrutura nuclear de um regime que se recusa a aceitar o “protocolo adicional” da Agência Internacional de Energia Atômica, aquele que permite inspeções mais rigorosas. Recusa-se também ao “padrão-ouro” abraçado pelos vizinhos dos Emirados Árabes, o compromisso formal de jamais enriquecer urânio. O argumento da Casa Branca é que, ao manter o processo sob supervisão americana, mitiga-se o risco de desvio para fins militares. É uma lógica que só convence quem já está convencido, uma aposta na lealdade de um parceiro cuja única lealdade provada é ao próprio poder.
Uma nova partilha atômica
O que se desenha não é paz, mas um novo equilíbrio de terror. Por décadas, a não proliferação no Oriente Médio se apoiou em dois pilares frágeis: a ambiguidade nuclear de Israel e a contenção do Irã. A declaração do príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman, de que buscaria a bomba se Teerã a obtivesse, nunca foi um blefe. Foi um aviso. O acordo com os Estados Unidos é a materialização desse aviso, a primeira parcela da apólice de seguro atômica da monarquia saudita. Washington, ao invés de desarmar a corrida, escolhe seu cavalo preferido para a largada.
A imagem do príncipe Abdulaziz bin Salman apertando a mão de Chris Wright, o americano, ecoa outros acordos, outras partilhas feitas com régua e caneta sobre mapas de areia. O Congresso em Washington pode até protestar, mas a maioria de dois terços necessária para derrubar um veto presidencial parece um obstáculo distante. O que está em jogo é maior que a política interna: é a tentativa de amarrar Riad à órbita americana, de excluir russos e chineses da festa atômica. O preço dessa exclusividade, contudo, é a legitimação de uma ambição nuclear que pode, um dia, tornar a chantagem atômica a *lingua franca* da região. A bomba, como ensina a história, é uma ideia contagiosa.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Trump aprova acordo nuclear dos EUA com Arábia Saudita
Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil