A bola que já não rola por nós
Análise · Marcos Tibúrcio Houve um tempo, e não faz tanto, em que a bola era entregue ao árbitro pela mão calosa de um campeão antigo.
Análise · Marcos Tibúrcio
Houve um tempo, e não faz tanto, em que a bola era entregue ao árbitro pela mão calosa de um campeão antigo. Um herói de outra era, cabelos brancos e o passo lento de quem já correu tudo o que tinha para correr. Ele entrava no gramado e a arquibancada, num murmúrio de reverência, reconhecia a história em carne e osso. Era um rito. A memória do jogo validando o jogo que estava por vir. No último sábado, em Miami, na disputa pelo bronze de uma Copa do Mundo, a bola chegou ao centro do campo nas mãos de uma moça de 24 anos.
O nome dela é Jade Picon. O jornal português “A Bola”, com a candura de quem descobre um continente, chamou-a de “deslumbrante protagonista”. E talvez seja mesmo. Não do jogo, essa peleja entre ingleses e franceses que a maioria esquecerá em uma semana, mas do espetáculo que o futebol se tornou. A moça, com seus milhões de seguidores, não é embaixadora de um clube ou de uma camisa. É embaixadora da marca que fabrica o objeto redondo. A bola, agora, tem seus próprios donos.
Não há nada de errado com a moça, que fez seu trabalho. O drama está no que a cena representa. A Copa do Mundo, o grande palco do drama humano travestido de esporte, terceirizou seu ato inaugural. O antigo campeão trazia consigo a lembrança de um gol impossível, de uma defesa milagrosa, de uma glória conquistada no suor. A nova protagonista traz consigo a métrica dos cliques, a autoridade do engajamento. A legitimidade, antes vinda do campo, agora emana da tela do celular.
Em Miami, enquanto um influenciador britânico acompanhava a brasileira, a arquibancada assistia a uma transação simbólica. O futebol, que um dia foi do povo, depois dos cartolas e das televisões, agora se ajoelha ao novo poder: o algoritmo. A bola que Jade Picon carregava não era apenas o instrumento do jogo; era um produto, um ativo de marketing, uma peça de conteúdo. Sua breve caminhada no gramado “inundou as redes sociais”, como noticiou o plantão. E esse, ao que parece, era o único gol que importava antes do apito inicial.
A glória e a tragédia, o drible e a falta, o grito engasgado e o abraço no desconhecido da cadeira ao lado. Tudo isso, que é a alma da arquibancada, virou cenário. Um fundo verde para a verdadeira partida, jogada em outra dimensão. A bola rolou, a Inglaterra goleou, mas o verdadeiro apito final já tinha soado quando os novos protagonistas, com seus contratos e seguidores, deixaram o campo.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Jornal português destaca Jade Picon em jogo da Copa do Mundo
Fonte: ge