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Uso indevido da semaglutida alerta médicos para riscos à saúde

Médicos alertam sobre o uso inadequado da semaglutida, popularmente conhecida como Ozempic, para fins estéticos, destacando os riscos à saúde pública e a escassez do medicamento para pacientes com diabetes tipo 2.

Uso indevido da semaglutida alerta médicos para riscos à saúde
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Dra. Camila Torres

Hortolândia, São Paulo. Numa fábrica de peptídeos, uma molécula que virou fenômeno cultural começa a ser produzida em escala. A aprovação do Yluméc (semaglutida) pela Anvisa, o terceiro medicamento da farmacêutica EMS com o mesmo princípio ativo, não é apenas um registro sanitário no Diário Oficial. É a consolidação de um novo mercado que se abriu em 20 de março, com o fim da patente do Ozempic, da Novo Nordisk.

Até aquele dia, a semaglutida era um monopólio. Agora, o cenário é de pulverização. Apenas nos últimos meses, a agência reguladora brasileira aprovou pelo menos nove novos produtos com a substância. Owozy, Seemasun, Zempneo, Semavy, Orsema, Semaclique — a lista de nomes comerciais cresce, povoando as prateleiras com canetas aplicadoras que prometem o mesmo efeito da molécula original. Prometem, por enquanto, o que está na bula: o controle do diabetes tipo 2 em adultos.

Uma corrida de mercado, não de saúde

A estratégia da EMS é notável. Com um medicamento genérico, um similar (Ozivy) e agora um clone deste similar (Yluméc), a empresa brasileira se posiciona para competir em múltiplas frentes. O genérico, sem nome fantasia, briga por preço. Os similares, com marca, disputam a preferência de médicos e pacientes. É um movimento comercial clássico, uma resposta ágil à demanda reprimida e à oportunidade de negócio que a expiração de uma patente sempre representa.

Mas essa corrida levanta uma questão que transcende a lógica da indústria farmacêutica. A semaglutida, como outros agonistas do receptor GLP-1, foi de indicação clínica precisa a atalho estético. A discussão pública, inflamada por relatos em redes sociais e pelo uso off-label para emagrecimento, há muito deixou para trás a complexidade do tratamento de uma doença crônica como o diabetes. A chegada de tantos "clones" e "similares" tende a acelerar essa banalização. Com mais oferta e a eventual queda de preços, o acesso se amplia. A fiscalização, no entanto, não necessariamente acompanha o mesmo ritmo.

O que a multiplicação de marcas de semaglutida nos diz é que o debate sobre peso, saúde e imagem corporal será cada vez mais mediado por uma caneta aplicadora. É uma conversa que a medicina precisa ter, distinguindo com clareza a necessidade clínica da preferência cultural. A eficácia da molécula para o diabetes tipo 2 é robusta, mas o futuro dirá se essa proliferação de produtos servirá primariamente ao controle da glicemia ou a outros anseios, menos mensuráveis e mais difusos.

O que acontece quando um medicamento potente se torna um produto de consumo como qualquer outro? A resposta ainda está sendo escrita, uma aplicação por vez.

Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Anvisa aprova Yluméc, nova caneta de semaglutida da EMS

Fontes: Agência Brasil · Folha de S.Paulo

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.