A banalidade do míssil
Análise · Clara Verdi Nove noites. Não é uma guerra declarada, com a solenidade trágica das antigas chancelarias, mas um gotejar noturno…
Análise · Clara Verdi
Nove noites. Não é uma guerra declarada, com a solenidade trágica das antigas chancelarias, mas um gotejar noturno de explosões, anunciado em comunicados curtos numa rede social. A normalização da agressão tem sua própria liturgia. Às sete da noite, horário da costa leste americana, o Comando Central informa que os ataques recomeçaram, como se ajustasse o relógio para uma operação fabril. O alvo é o Irã. O objetivo, diz o jargão militar, é "reduzir as capacidades". A linguagem, asséptica, esvazia o ato de seu sangue.
O que se perde na repetição é a surpresa. A primeira noite é um choque; a terceira, uma escalada; a nona é paisagem. O Estreito de Ormuz, essa artéria por onde pulsa o petróleo do mundo, serve de pretexto geográfico para uma violência que se torna rotina. Morreram militares americanos, diz a justificativa, e agora a resposta virá em prestações, noite após noite, até que o outro lado se esgote ou a atenção do mundo se desvie por completo. O cálculo é frio: transformar o estado de exceção em normalidade administrativa.
O que nos diz essa cadência? Que a guerra contemporânea pode prescindir do espetáculo da invasão em massa para se contentar com a insistência burocrática do bombardeio. Não há um front, apenas alvos. Não há uma narrativa de conquista, apenas um discurso técnico de "redução de capacidades". As explosões relatadas pela mídia iraniana tornam-se um ruído de fundo na cacofonia global, menos urgentes que a última crise de governo em Roma ou a cotação do trigo em Chicago.
A nona noite não é sobre estratégia militar; é sobre a domesticação da violência. É a afirmação de que um Estado pode bombardear outro, consecutivamente, sem que isso sequer mereça o nome de guerra. É apenas mais uma onda, mais um post, mais uma noite. Até que venha a décima.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: EUA anunciam nona noite seguida de ataques ao Irã
Fontes: CNN Brasil · UOL