A banalidade do drone
Análise · Clara Verdi A fumaça preta subindo do shopping em Kryvyi Rih não é uma imagem nova.
Análise · Clara Verdi
A fumaça preta subindo do shopping em Kryvyi Rih não é uma imagem nova. É um quadro recorrente, um gênero pictórico desta guerra que se arrasta há quatro anos e meio. Um prédio qualquer, antes um lugar de trocas banais, agora é escombro e corpo. O número de mortos — catorze, até a última contagem — é apenas a legenda da foto, o dado que o atualiza, que o distingue do ataque de ontem em Kiev e do que virá amanhã.
O que distingue Kryvyi Rih, no entanto, não está na estatística, mas na sintaxe do ataque. O primeiro drone abre a ferida. O segundo, meia hora depois, a envenena. É o que se chama, no jargão militar, de double tap. Uma técnica desenhada não apenas para matar, mas para punir quem socorre. Para transformar o ato de salvar numa armadilha. A mira não está no soldado, mas no paramédico; não na infraestrutura militar, mas no gesto humano que resta entre os destroços.
Dizem que o alvo era simbólico: a cidade natal de Volodymyr Zelensky. É uma leitura possível, mas talvez redutora. A lógica da crueldade calculada, exposta neste ataque, transcende a biografia de um presidente. Ela fala diretamente a uma Europa que aprendeu a conviver com a guerra em suas bordas, a absorvê-la como um ruído de fundo, um item a mais no noticiário entre a inflação e a última cimeira em Bruxelas.
A guerra há muito deixou de ser um evento e se tornou uma condição.
A tática não é nova. De Aleppo à Faixa de Gaza, atacar socorristas é um método para paralisar a resiliência civil, para instalar o terror para além do combate. Que ela se aplique agora, com a precisão de um relógio, a um centro comercial no coração industrial da Ucrânia, é um sinal. Um sinal de que a guerra há muito deixou de ser um evento e se tornou uma condição, com suas próprias regras, sua própria normalidade perversa. Um estado de coisas onde um shopping pode ser um alvo militar e a piedade, um risco mortal.
Ninguém sabe se essa escalada na guerra aérea é desespero tático ou uma estratégia deliberada para quebrar o moral de um país antes que o inverno chegue. O que se sabe é que o horror, quando se repete, corre o risco de virar paisagem. Resta saber que humanidade sobrevive quando o cinismo se torna método e a fumaça, rotina.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Ataque russo a shopping em Kryvyi Rih mata ao menos 14 pessoas
Fontes: CNN Brasil · UOL