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A balística do desespero

Análise · Clara Verdi A morte tem uma geografia particular.

A balística do desespero
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

A morte tem uma geografia particular. A família aniquilada nos arredores de Kryvyi Rih — pais, três filhos, outros parentes, a casa transformada em cratera — não foi vítima de uma arma qualquer, de uma abstração da indústria bélica. A acusação de Volodymyr Zelensky, proferida no tom grave de quem já não tem mais como se surpreender, aponta para Pyongyang. Um míssil norte-coreano, segundo ele, cruzou a Eurásia para executar uma família ucraniana. A trajetória da ogiva é também a linha que une os párias do sistema internacional, um eixo forjado na necessidade e no desprezo mútuo pelas convenções que outros se dão ao luxo de invocar.

Não há surpresa, apenas a confirmação de uma lógica que se arrasta há meses. O Kremlin, esvaziando seus próprios arsenais a um ritmo insustentável, volta-se para quem tem munição de sobra e poucas perguntas a fazer. A Coreia do Norte, por sua vez, encontra no campo de batalha ucraniano o laboratório perfeito para suas armas e, no rublo, um alívio para sua economia asfixiada. É um pacto cínico, selado longe das câmaras de Genebra, em que a moeda de troca são projéteis de artilharia, drones e, agora, mísseis balísticos cuja precisão é notoriamente duvidosa — o que talvez explique por que uma residência civil, e não uma instalação militar, foi pulverizada.

Para a Ucrânia, a materialização desse míssil nos escombros de uma casa é a prova final de um abandono progressivo. Zelensky não fala mais de abstrações quando pede sistemas Patriot. Ele fala do terror que chega do céu, da impossibilidade de proteger uma criança de seis anos de um projétil vindo de um regime a sete mil quilômetros de distância. A diplomacia das sanções e dos comunicados oficiais de Bruxelas revela-se impotente diante da balística do desespero.

O ataque em si, parte de uma ofensiva com mais de 70 mísseis e centenas de drones, desmente a narrativa russa de que apenas alvos militares são visados. Um terminal de encomendas, edifícios residenciais, um mercado em chamas. A guerra, em sua fase atual, não busca mais a conquista, mas a exaustão pelo terror. E a origem do míssil que matou aquela família é menos um detalhe técnico e mais um epitáfio. Demonstra que, para os autocratas do mundo, a vida de uma família ucraniana tem o mesmo valor que uma nota de rodapé num acordo de armas: nenhum.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Zelensky acusa Coreia do Norte de fornecer míssil à Rússia

Fontes: g1 · UOL