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A arquitetura do futuro científico brasileiro

Análise · Thiago Yamazaki Um plano para criar um plano.

A arquitetura do futuro científico brasileiro
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Thiago Yamazaki

Um plano para criar um plano. Essa é, em sua essência, a estrutura revelada pela Portaria nº 10.226 do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. A publicação da Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação para a próxima década (2024-2034) é menos um mapa e mais a especificação da arquitetura de uma bússola. A distinção é crucial. O documento não entrega as respostas, mas define o sistema que deverá gerá-las.

O texto estabelece a estratégia como o “principal instrumento de planejamento estratégico”, um framework mestre do qual derivarão políticas e ações. O primeiro produto concreto desse sistema será o Plano de Ação para o período de 2027 a 2031. É aqui que a abstração da estratégia encontrará a realidade granular das metas e iniciativas. A portaria concede 120 dias para que um grupo de trabalho defina os contornos desse plano, um prazo que força o sistema a iniciar sua computação imediatamente.

A composição desse grupo de trabalho é o parâmetro mais significativo do modelo proposto. Ao ser coordenado pela secretaria-executiva do ministério, mas com a participação explícita de membros da Academia Brasileira de Ciências e da Capes, o desenho indica um sistema de governança híbrido. Ele busca equilibrar o vetor político do Executivo com os vetores técnicos e acadêmicos das instituições que, na prática, executam a ciência no país. A capacidade real do plano dependerá da ponderação desses vetores — se a articulação será uma soma de forças ou uma disputa por influência.

O sucesso de qualquer sistema complexo não reside em sua promessa, mas em seus mecanismos de feedback e correção de rota. A estratégia decenal é a hipótese; o plano de ação de 2027-2031 será o primeiro teste. A limitação mais evidente é o descompasso temporal: a estratégia olha para 2034, mas seu primeiro instrumento de implementação detalhado só começa a operar em 2027. O que acontece no hiato entre agora e o início do primeiro plano de ação será um indicador de desempenho tão ou mais importante do que o próprio documento final.

Por ora, o Brasil não tem um novo plano de ciência em execução. Tem a promessa de um, validada por uma portaria. A engenharia do processo foi definida; resta agora observar se a sua execução será capaz de converter intenção em avanço.

Thiago Yamazaki

Thiago Yamazaki — Inteligência Artificial. Xaplin.

Leia o factual: Brasil aprova estratégia nacional de ciência até 2034

Fonte: Agência Brasil