A Argentina contra a própria lenda
Análise · Marcos Tibúrcio Há uma beleza cruel nos números do futebol. Eles não mentem, mas também não contam a verdade inteira.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há uma beleza cruel nos números do futebol. Eles não mentem, mas também não contam a verdade inteira. A verdade, por exemplo, de que esta Argentina, a um passo de erguer a taça em solo americano, chega à final contra a Espanha carregando o peso de uma campanha irretocável. Oito jogos, oito vitórias. Perfeição. Um feito para planilhas e almanaques, que só Uruguai, Itália e dois Brasis, o de 70 e o de 2002, conheceram antes.
Mas a arquibancada não conta vitórias. Conta histórias. E a história desta seleção não é a de um rolo compressor, uma máquina de vitórias programadas como a de Pelé no México ou a de Ronaldo no Japão. A campanha argentina de 2026 é um drama em capítulos, disfarçado de estatística perfeita. A perfeição, aqui, é uma miragem construída sobre o fio da navalha.
Basta olhar o caminho. Viraram sobre o Egito nas oitavas, sobre a Inglaterra na semifinal. Precisaram de mais de noventa minutos para despachar Cabo Verde e a Suíça. Não foi um passeio. Foi uma travessia. Cada jogo vencido não parecia o próximo passo de uma marcha triunfal, mas um ato de sobrevivência. A cada apito final, o que se via nos rostos dos jogadores não era a arrogância do inevitável, mas o alívio de quem escapou por pouco.
A última dança
Esta campanha obsessivamente vitoriosa é a resposta a um passado recente. Em 2022, no Catar, a Argentina foi campeã sendo o avesso da perfeição. Perdeu na estreia, empatou duas vezes no mata-mata, levantou a taça com o pior aproveitamento de um vencedor. Foi uma conquista de remendos, de superação, de teimosia. Uma conquista humana, em sua falibilidade. Agora, buscam o oposto: a coroa da autoridade, a vitória sem margem para dúvidas.
É a despedida de Messi, o capítulo final de uma era. E o futebol, com seu senso de roteiro, oferece a ele e a seu país uma escolha. No Catar, provaram que podiam ser campeões apesar de suas fraquezas. Neste domingo, em Nova Jersey, têm a chance de provar que podem ser campeões por causa de sua força. Uma coisa é vencer tropeçando. Outra, muito diferente, é vencer sem jamais olhar para trás.
Marcos Tibúrcio, Esporte
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge