A alma do futebol não tem preço
Análise · Marcos Tibúrcio Enquanto a bola rola nos gramados da América do Norte, nos escritórios de Nyon, na Suíça, joga-se outra partida.
Análise · Marcos Tibúrcio
Enquanto a bola rola nos gramados da América do Norte, nos escritórios de Nyon, na Suíça, joga-se outra partida. Uma mais silenciosa, sem grito de gol, mas cujo resultado pode alterar o campo para sempre. A Fifa, na figura de seu presidente Gianni Infantino, acenou com uma ideia que veste a fantasia de modernidade: criar uma empresa, a Fifa Forward Enterprise, e vender parte dela a quem pagar mais. Uma operação que renderia, de saída, 4,2 bilhões de dólares.
O dinheiro, como sempre, vem acompanhado de uma promessa generosa. Infantino fala em saltar o repasse a cada federação nacional de 8 para 20 milhões de dólares. É a isca, o passe açucarado para o centroavante livre na pequena área. Difícil resistir. A federação da República Tcheca, por exemplo, já balançou a rede e acenou positivamente.
Mas a Uefa não viu um passe. Viu uma rasteira. E convocou suas 55 filiadas para uma reunião de emergência com o ar pesado de quem discute o inegociável. Ameaça até com um boicote, uma ausência sentida em campo, como a do craque que se recusa a jogar por um time que vendeu o escudo.
Uma linha que não se cruza
A reação europeia, que arrastou consigo as confederações da Ásia e da Concacaf, não é um mero capricho de cartolas. É a defesa de uma fronteira. O futebol, com seus negócios bilionários, seus contratos de televisão e seus patrocínios que cobrem estádios inteiros, sempre foi governado, ao menos no papel, por quem vive o jogo. Federações, clubes, associações. Vender um pedaço da operação a investidores privados, anônimos, que enxergam apenas cifras e não o drible, é entregar as chaves de casa a um estranho.
A alma e a governança do futebol não são ativos para negociar — especialmente com zero transparência quanto a quem ganha financeiramente. Nenhum de nós é dono do futebol. Não cabe à Fifa vendê-lo.
A declaração da Uefa tem o peso de um manifesto. Ela lembra que o futebol, esse drama que se desenrola em 90 minutos, não é um produto de prateleira. O plano de Infantino, costurado a portas fechadas, trata o esporte como uma commodity, uma ação na bolsa de valores que sobe com um título e desce com uma eliminação. A proposta transforma a governança numa negociação. E a paixão da arquibancada, essa força que Infantino não pode empacotar e vender, assiste a tudo de longe, desconfiada. Ela sabe que, quando o dinheiro fala mais alto que o apito, quem perde é sempre o jogo.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge