A Aids, a escolha e o abismo entre ciência e política
Análise · Dra. Camila Torres Os números apresentados pelo Programa Conjunto das Nações Unidas para HIV/Aids (Unaids) na abertura da 26ª Conferência…
Análise · Dra. Camila Torres
Os números apresentados pelo Programa Conjunto das Nações Unidas para HIV/Aids (Unaids) na abertura da 26ª Conferência Internacional de Aids, no Rio de Janeiro, desenham um paradoxo que define a saúde pública neste século. De um lado, o avanço inegável: as novas infecções por HIV e as mortes relacionadas à doença atingiram seus menores níveis globais. Foram 1,2 milhão de novas infecções e 570 mil mortes no último ano, uma redução expressiva desde o pico da epidemia. Do outro, um alerta que soa quase como uma acusação: este progresso está sob ameaça por falta de recursos.
A diretora-executiva da Unaids, Winnie Byanyima, articulou a questão com uma precisão que deveria ecoar em parlamentos e conselhos de administração. “A pergunta não é mais se a gente consegue acabar com a aids, e, sim, se nós escolheremos acabar com a Aids.” A frase desloca o problema do campo da possibilidade científica para o da vontade política. A ciência, como disse Byanyima, fez seu trabalho. Temos ferramentas como a profilaxia pré-exposição (PrEP) injetável, capaz de proteger uma pessoa por até seis meses, uma inovação que há duas décadas pareceria ficção científica.
O abismo, portanto, não é de conhecimento, mas de acesso. A Unaids estima que 20 milhões de pessoas precisam da PrEP injetável para que a meta de eliminar a Aids como ameaça à saúde pública até 2030 seja mais que uma aspiração no papel. O Brasil, que sedia a conferência pela primeira vez, ilustra a complexidade do cenário: enquanto o mundo via uma queda nos números, nosso país está entre os 21 onde os novos casos aumentaram. A resposta foi ampliar o acesso a medicamentos de prevenção em 41%, uma medida correta, mas que ocorre em reação a uma maré que volta a subir.
O que a epidemiologia nos ensina é que nenhuma vitória contra uma doença infecciosa é permanente. Ela é, antes, um equilíbrio instável, mantido por vigilância, investimento contínuo e, acima de tudo, equidade. A inovação restrita a poucos não é avanço; é a criação de um novo tipo de desigualdade, onde a saúde passa a ser um privilégio definido por geografia e renda.
Inovação sem acesso não é inovação, e, sim, injustiça. Esses medicamentos continuam fora de alcance para a maioria das pessoas que precisam deles.
As palavras de Winnie Byanyima são um chamado à responsabilidade. A trajetória da luta contra a Aids é uma história de conquistas científicas espetaculares impulsionadas por ativismo e vontade política. Reduzir o financiamento agora, quando a meta é alcançável, não é apenas um erro de cálculo orçamentário. É uma escolha deliberada por abandonar o caminho no momento em que a linha de chegada se tornou visível.
Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.
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Fonte: Agência Brasil
Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.