Xaplin On
Brasília
Portal Xaplin — jornalismo vivo • a revista não dorme
USD EUR GBP JPY BTC ETH SOL BNB

A água não respeita a geometria do poder

Análise · Rafael Tokyo Noventa milímetros de chuva em uma hora. O número, registrado no distrito de Changping, é uma abstração até deixar de ser.

A água não respeita a geometria do poder
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Rafael Tokyo

Noventa milímetros de chuva em uma hora. O número, registrado no distrito de Changping, é uma abstração até deixar de ser. Deixa de ser quando transforma uma avenida de múltiplas faixas em rio. A água sobe, cobre o asfalto, engole os pneus. A cidade planejada, a capital imperial e depois comunista, descobre que a natureza não opera segundo a lógica dos anéis viários. Pequim, nesta quarta-feira, foi lembrada de sua geografia original.

O tufão Dolphin já não era um tufão ao chegar à capital. Era um resquício, um fantasma de umidade tropical que viajou mais de 6.000 quilômetros. Mas fantasmas podem ser mais fortes que corpos. A tempestade enfraquecida paralisou a segunda maior economia do mundo em seu centro nevrálgico. Duzentas e cinquenta linhas de ônibus suspensas, 150 pontos turísticos fechados, dez linhas de metrô em marcha lenta. Os números medem a interrupção. Eles quantificam o transtorno.

Mas o transtorno tem uma face humana, um nome. Em Luohe, na província de Henan, onde o mesmo sistema já passou, Zhao Junxia usa uma palavra simples: “inconvenientes”. É uma palavra modesta para descrever a vida suspensa. A dificuldade para conseguir comida, para se mover. O trabalho que não pode ser feito. A rotina, esse pilar invisível que sustenta as megacidades, quebra-se com a mesma facilidade de uma represa de areia. A normalidade é a primeira vítima da inundação.

Cientistas associam a frequência e a intensidade destes eventos às mudanças climáticas, ao padrão emergente do El Niño. É a análise correta, a explicação macro. Mas na rua, para o motorista preso na água barrenta ou para o lojista que vê a chuva entrar pela porta, a causa imediata é o céu que se abriu. A escala é outra. É a do corpo molhado, do compromisso perdido.

O poder constrói para a permanência. Avenidas largas, sistemas de transporte complexos, monumentos que devem durar séculos. A chuva, porém, não negocia com projetos. Ela simplesmente cai. O que se vê nos vídeos que circulam não é apenas o trânsito parado. É a geometria do controle estatal submersa por uma força que não se pode controlar.

Quando a água baixar, a vida voltará. Mas o que fica, depositado com a lama, é a consciência da fragilidade. Qual será o próximo recorde de precipitação?

Rafael Tokyo — Ásia. Xaplin.

Leia o factual: Tufão Dolphin causa inundações em Pequim; alerta máximo na capital

Fonte: Agência Brasil