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Zema critica duplicação de atribuições entre governos

O governador mineiro criticou a sobreposição de responsabilidades entre esferas de governo durante evento da CNI.

Zema critica duplicação de atribuições entre governos

Análise · Luciano Aragão

Romeu Zema chegou ao evento da Confederação Nacional da Indústria na segunda-feira, 22, com uma proposta para o Bolsa Família. Saiu com uma declaração que resume, com precisão involuntária, a visão de mundo que pretende levar ao Planalto.

A ideia, apresentada pelo ex-governador de Minas Gerais a uma plateia de empresários, é exigir que homens beneficiários do programa concluam os estudos como contrapartida. Apenas os homens. As mulheres, segundo ele, "têm outras atribuições em casa".

Há um problema técnico imediato, que qualquer analista de política social apontaria antes do café: as titulares do Bolsa Família são, em sua esmagadora maioria, mulheres. O programa foi desenhado assim deliberadamente, a partir de evidências de que o repasse à responsável pela unidade doméstica aumenta a probabilidade de o dinheiro chegar às crianças. Propor condicionalidades de estudo apenas para os homens, portanto, não é uma reforma do programa — é uma proposta paralela que ignora sua arquitetura central.

Mas o problema técnico é o de menor consequência.

O que Zema enunciou diante da CNI não foi uma distração de campanha nem um deslize de microfone. Foi argumento. Ele explicou o raciocínio. A mulher tem atribuições em casa; logo, a obrigação de estudar não se aplica a ela. A lógica é coerente consigo mesma — e é exatamente isso que a torna reveladora. Não se trata de improviso; trata-se de convicção.

Candidatos revelam mais sobre si quando estão confortáveis do que quando estão sob pressão. Diante de empresários, Zema estava confortável.

O contexto eleitoral importa aqui. O Novo ocupa um espaço específico no campo liberal brasileiro: fiscalmente austero, retoricamente antiestatista, com apelo a um eleitorado urbano de renda média que associa o partido a gestão técnica e afastamento do clientelismo. A proposta apresentada na CNI não serve a nenhum desses atributos. Ela não é eficiente, não é técnica e não reduz o custo do programa. Ela é, simplesmente, ideológica — no sentido mais literal do termo: organiza o mundo a partir de uma hierarquia prévia entre papéis sociais.

O que Zema fez foi dar nome ao que pensa. Isso tem valor analítico. Candidatos costumam esconder as premissas e exibir as conclusões; ele inverteu a ordem. A conclusão — exigência de estudo só para homens — é a consequência de uma premissa declarada: mulher pertence ao espaço doméstico. O eleitor que concordar com a premissa tem, agora, um candidato que a assina.

A questão que fica para os estrategistas do Novo é de outra natureza. O partido construiu sua identidade em torno da ideia de que há uma forma racional, não ideológica, de gerir o Estado. Seu presidenciável acaba de propor, para um programa de transferência de renda, uma condicionalidade baseada em divisão de gênero. O adjetivo que melhor descreve essa combinação não é "técnico".

Romeu Zema não escorregou. Ele disse o que pensa. O trabalho do eleitor é decidir se quer isso no Planalto.

Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.

Leia o factual: Zema propõe exigir estudo só de homens no Bolsa Família

Fontes: g1 · Folha de S.Paulo