Vôlei no Maracanêzinho: Antigos Rivais Recriam Clássico Esportivo
Maracanêzinho vira palco para reencontro de rivais históricos do vôlei, prometendo tensão e espetáculo. Análise de Marcos Tibúrcios.
Análise · Marcos Tibúrcio
Amanhã, o meio-dia do Rio de Janeiro terá a solenidade de um ritual. Não se trata apenas de uma partida de vôlei. A tabela, com sua frieza de planilha, diz que Brasil e Argentina decidem uma vaga para os Jogos Olímpicos de Los Angeles, mas o que acontece dentro do Maracanãzinho é de outra ordem. É um encontro de velhos fantasmas, de camisas que pesam e de uma rivalidade que atravessa a rede e se instala no silêncio que antecede o saque.
O Brasil chega invicto. Impecável, diria um otimista. Varreu quatro adversários sem ceder um único set, um roteiro de soberania que o histórico de 23 títulos sul-americanos parece autorizar. No sábado, diante do Chile, a vitória por 3 a 0 cumpriu o protocolo. Mas o diabo, como sempre, mora nos detalhes. O placar da segunda parcial — 30 a 28, depois de as brasileiras estarem quatro pontos atrás e salvarem o que seriam quatro set points — é um aviso. A perfeição, mesmo contra um adversário modesto, é uma miragem frágil.
Naquele momento, quando o Chile abriu 23 a 19, o ginásio sentiu o calafrio da dúvida. Foi um ensaio para o drama de domingo. Aquele lapso de concentração, aquele breve instante de desordem, é tudo o que a Argentina precisa. As argentinas, com sua camisa de listras verticais, também estão invictas, mas a campanha delas é feita de outra matéria. Foi construída no sufoco, nos sets longos contra Peru e Colômbia, na vitória por 3 a 2 que lhes custou um ponto na classificação. Elas chegam calejadas.
É claro que o favoritismo tem endereço. Está no banco, com a figura onipresente de José Roberto Guimarães, e está em quadra, nos braços de Gabi, Tainara e Julia Bergmann, a maior pontuadora do último jogo. Mas a história não entra em quadra para sacar ou bloquear.
A seleção brasileira não joga apenas contra seis atletas do outro lado. Joga contra a própria sombra, contra a obrigação de vencer que seus 15 títulos continentais consecutivos impõem. A Argentina joga por um milagre. O Brasil, para evitar uma tragédia. E a diferença entre essas duas missões define o temperamento de uma final.
Ao meio-dia, o sol baterá forte na Tijuca. Lá dentro, o que estará em jogo é a capacidade de um time hegemônico lidar com um instante de vacilo. Um único. Porque do outro lado estará uma equipe que se acostumou a viver no fio da navalha. Para quem o favoritismo brasileiro é só mais um elemento do cenário?
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: Agência Brasil