Terremotos de magnitude 7,5 e 7,2 atingem Venezuela
Dois terremotos separados por menos de um minuto sacudiram a Venezuela na quarta-feira, 24. As magnitudes foram 7,5 e 7,2.
Análise · Clara Verdi
Na quarta-feira, 24, dois terremotos separados por menos de um minuto — magnitudes 7,5 e 7,2 — sacudiram a Venezuela. Até o domingo seguinte, o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, anunciava 1.450 mortos e 3.150 feridos. São números que pedem silêncio antes de qualquer análise. E pedem, depois do silêncio, uma pergunta que os boletins de agência raramente fazem: por que o mesmo tremor mata de formas tão diferentes dependendo do país que ele encontra?
A sismologia não tem partido político. A vulnerabilidade, sim. Um terremoto de magnitude 7,5 é um evento de força bruta, capaz de dobrar infraestrutura mesmo em países com padrões construtivos rigorosos. Mas a diferença entre centenas e milhares de mortos raramente está na geofísica — está no que o Estado construiu, ou deixou de construir, nas décadas anteriores ao tremor. A Venezuela chega a este desastre depois de anos de colapso sistemático: hospitais sem insumos, redes elétricas instáveis, êxodo de engenheiros e técnicos, construções populares erguidas à margem de qualquer código de obras. O terremoto não criou essa fragilidade. Ele a revelou com a crueldade de sempre.
Há uma tradição intelectual latino-americana, da qual o próprio Pasolini teria reconhecido o impulso, que insiste em ler o desastre natural como texto político. Não para diminuir a dor — precisamente o contrário. Para recusar a neutralidade cínica de quem trata a morte em massa como fenômeno meteorológico, como se os mortos tivessem caído do céu em vez de estarem, já antes, abandonados por ele.
O número 1.450 não é apenas uma soma. É o registro de um Estado que chegou ao desastre já desmoronado.
A cobertura internacional tende a tratar a Venezuela como um caso encerrado — o país do chavismo em ruínas, narrativa que dispensa aprofundamento. O que essa moldura impede de ver é a textura concreta do que acontece quando uma sociedade exausta enfrenta um evento desta magnitude sem capacidade institucional de resposta. Equipes de resgate operam em contextos onde a logística básica há anos não funciona. A população já havia desenvolvido, por necessidade, formas de solidariedade informal que o Estado não consegue nem organizar nem substituir. É nessa lacuna — entre o que o governo anuncia e o que as pessoas encontram no chão — que se mede a real dimensão do colapso.
Jorge Rodríguez anunciou os números. O que os números não anunciam é a pergunta que a Venezuela, e quem a observa, precisará sustentar: o que se reconstrói, e como, quando o terremoto é apenas o último de uma série de desmoronamentos? A resposta não está na sismologia. Está na política — palavra que, neste caso, pesa tanto quanto os escombros.
Clara Verdi é correspondente da Xaplin na Europa e doutora em Ciência Política pela Sciences Po.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Número de mortos por terremotos na Venezuela chega a 1.450
Fontes: Agência Brasil · g1 · Folha de S.Paulo