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Venezuela: os mortos que os números não conseguem conter

Análise · Clara Verdi Há um problema com o número 4.490. Não é que seja falso — é que pode ser insuficiente.

Venezuela: os mortos que os números não conseguem conter
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Análise · Clara Verdi

Há um problema com o número 4.490. Não é que seja falso — é que pode ser insuficiente. O próprio governo venezuelano admite que o processo de inspeção de edifícios ainda está em curso, que os danos estruturais nas construções que não desabaram completamente ainda estão sendo avaliados, e que o número de desabrigados — hoje estimado entre 18 e 19 mil pessoas em mais de cem acampamentos — tende a crescer. Quando uma autoridade admite que seus próprios dados são provisórios, o número que ela publica deixa de ser uma medida e passa a ser um gesto político: o gesto de demonstrar controle sobre uma situação que claramente escapa ao controle.

Os terremotos atingiram a Venezuela em 24 de junho. Dezoito dias depois, 4.490 pessoas estão mortas, 16.740 estão feridas, e 1,3 milhão precisam de alguma forma de assistência humanitária, segundo as Nações Unidas. A NASA estima que até 60 mil edifícios podem ter sido danificados ou destruídos. O coordenador humanitário da ONU no país falou em pelo menos 2.500 edifícios afetados, a maioria dos quais desabou completamente. São números que se contradizem — não porque alguém minta, mas porque a catástrofe ainda está sendo contada enquanto ainda acontece.

O que a OMS identificou nos acampamentos temporários é o segundo ato de um desastre desse tipo: superlotação, saneamento precário, queda na cobertura vacinal, risco concreto de cólera, tuberculose, tétano e sarampo. A organização avalia abrir hospitais de campanha em Caracas e La Guaira, as regiões mais atingidas. Isso significa que as mortes que virão, se vierem, serão mortes diferentes — não pelo tremor, mas pela consequência do tremor sobre um sistema de saúde que já estava fraturado antes de 24 de junho.

A Venezuela não chegou ao terremoto intacta. Chegou já partido o contrato entre Estado e população, já desfiada a infraestrutura pública, já vaziados os hospitais de médicos e medicamentos por anos de colapso econômico e emigração em massa.

É nesse contexto que se deve ler a informação de que Jorge Rodríguez — presidente da Assembleia Nacional e irmão da presidente interina Delcy Rodríguez — foi nomeado chefe do Estado-Maior para os Acampamentos Transitórios. A resposta à catástrofe foi centralizada numa figura familiar ao poder, num arranjo que diz menos sobre eficiência administrativa e mais sobre como regimes autoritários respondem a emergências: fechando o círculo. Os US$ 300 milhões mobilizados pelas Nações Unidas chegam, portanto, a um país onde a mediação entre a ajuda e quem precisa dela passa por uma estrutura política que não costuma ser transparente sobre o que recebe nem sobre o que distribui.

O anúncio de que a distribuição de moradias começará na próxima semana é, nesse registro, ao mesmo tempo uma promessa e um sintoma: 25 mil unidades habitacionais serão necessárias, o governo já reconhece isso, e o prazo dado é vago o suficiente para não comprometer ninguém. Enquanto isso, nos abrigos, a superlotação não espera cronograma. A cólera não respeita comunicado oficial. Os mortos chegaram a 4.490 no domingo à tarde, e o número de amanhã ainda não foi publicado.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Mortos em terremotos na Venezuela chegam a 4.490

Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.

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