Venezuela: o luto que o Estado não alcança
Análise · Clara Verdi Há um detalhe que não aparece nos números — e o número já é brutal: 1.450 mortos.
Análise · Clara Verdi
Há um detalhe que não aparece nos números — e o número já é brutal: 1.450 mortos. O detalhe é este: há edifícios onde não foi removida sequer uma única pedra. Essa frase, pronunciada por quem espera do lado de fora dos escombros, contém mais informação sobre o Estado venezuelano do que qualquer boletim oficial.
As 72 horas que os especialistas em resgate chamam de janela crítica não são metáfora. São fisiologia. Depois desse intervalo, a probabilidade de encontrar alguém vivo sob concreto desaba junto com as esperanças. O que os familiares venezuelanos estão vivendo agora, enquanto aguardam ao redor de prédios intactos na sua destruição, é algo específico e atroz: a espera por um resgate que sabe ser, a esta altura, mais recuperação de corpos do que salvamento de vidas. E o Estado, aparentemente, não chegou nem para isso.
Maduro divulgou um vídeo de resgate de um menino dos escombros. O gesto é calculado — a imagem de uma criança salva funciona como prova de funcionamento institucional, como resposta simbólica ao caos. Mas a simbologia do Estado não remove pedras. E são os próprios cidadãos — mães, pais, filhos, primos, tios, vizinhos — quem ocupa o lugar onde deveria estar a máquina pública.
Isso tem nome na literatura política. Não é ausência de Estado: é a forma particular de presença que o Estado autoritário escolhe. Ele aparece para a câmera, some para o trabalho. Centraliza o poder, descentraliza o sofrimento. A Venezuela de Maduro não é um Estado falido no sentido clássico — é um Estado que aprendeu a administrar a narrativa da crise melhor do que a crise em si.
A frustração que cresce entre os venezuelanos não é apenas com a lentidão. É com a percepção de que a lentidão é estrutural — que não há resposta insuficiente por falta de recursos, mas por falta de compromisso com a vida ordinária de pessoas ordinárias.
A Venezuela chegou a este ponto depois de décadas de erosão institucional que nenhum colapso econômico explica sozinho. O que se destrói primeiro, antes das pontes e dos hospitais, é a confiança de que o Estado existe para servir quem ele governa. Quando um desastre natural chega — e ele sempre chega —, o que falta não é só equipamento de resgate. É a memória coletiva de um pacto que nunca foi cumprido.
O Brasil olha para isso com a distância confortável de quem tem fronteira. Mas é exatamente essa distância que embota a leitura. O que acontece na Venezuela não é exceção trágica. É o que acontece quando a captura do Estado por um projeto de poder dura tempo suficiente para se tornar paisagem. As pedras que ninguém removeu são, também, um documento político.
Clara Verdi é correspondente Europa da Xaplin e PhD em Ciência Política pela Sciences Po.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Cresce frustração com demora nos resgates na Venezuela
Fontes: g1 · BBC News Brasil