Xaplin On
Brasília
Portal Xaplin — jornalismo vivo • a revista não dorme
USD EUR GBP JPY BTC ETH SOL BNB

Venezuela, o chão que cede duas vezes

Análise · Clara Verdi Há uma crueldade específica no terremoto que atinge um país já partido.

Venezuela, o chão que cede duas vezes

Análise · Clara Verdi

Há uma crueldade específica no terremoto que atinge um país já partido. Não é apenas a crueldade da natureza — indiferente, sem ideologia, sem destinatário. É a crueldade da acumulação: sobre uma infraestrutura que décadas de má gestão e colapso econômico já haviam fragilizado, dois abalos sísmicos vêm agora somar destruição à destruição. A Nasa estima que quase 59 mil edifícios foram danificados ou destruídos. O número é preliminar. O que ele revela, porém, não é preliminar nem provisório.

A análise da agência americana parte de imagens de satélite — tecnologia que vê de cima o que os governos muitas vezes preferem que ninguém veja de perto. Na Venezuela de hoje, onde o fluxo de informação independente é rarefeito e onde o Estado há muito perdeu a capacidade — ou o interesse — de produzir dados confiáveis sobre seu próprio território, o satélite cumpre a função que o jornalismo livre e a burocracia estatal deveriam cumprir juntos. Não é pouca coisa.

59 mil edifícios. Para situar a escala: não são apenas casas. São hospitais que já operavam sem insumos, escolas que já funcionavam em turnos reduzidos pela falta de professores emigrados, blocos residenciais cujas rachaduras preexistentes não esperavam por terremoto para se anunciar. A Venezuela perdeu, nos últimos dez anos, uma fração significativa de sua classe técnica — engenheiros, médicos, professores — para a diáspora. Quem reconstrói, e com quê, são perguntas que o número da Nasa não responde, mas que o número da Nasa obriga a fazer.

O desastre natural raramente chega sozinho. Ele chega como revelador — da fragilidade estrutural que existia antes, da desigualdade que decide quem perde mais, da capacidade institucional que determina quem se recupera e quem não se recupera nunca.

A Europa olha para a Venezuela com aquela mistura particular de distância moral e interesse seletivo. Quando a crise política venezuelana podia ser narrada como embate entre autoritarismo e democracia liberal, havia cobertura, havia declarações, havia pressão diplomática. Um terremoto — catástrofe sem villain nítido, sem enquadramento ideológico fácil — tende a produzir notas de solidariedade e, logo depois, silêncio. O ciclo é previsível. A previsibilidade não o torna menos condenável.

O que me interessa, aqui de Paris, não é o número em si — embora o número importe, e muito. É o que o número ilumina sobre a condição de um Estado que chegou ao desastre natural já em estado de desastre permanente. Há uma expressão italiana, mal comune mezzo gaudio — o sofrimento compartilhado como consolo —, que a situação venezuelana desfaz completamente: quando tudo já era difícil, o terremoto não divide a dor, ele a multiplica de forma assimétrica, pousando sempre mais pesado sobre quem já carregava mais.

A análise da Nasa é preliminar. As implicações, não.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Nasa estima que terremotos danificaram 59 mil edifícios na Venezuela

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL